Hipomania: Quando a Energia Deixa de Ser Apenas Alegria
Série editorial · Psicologia Baseada em Evidências — Projeto editorial do Psicólogo Jan Lopes.

A ciência já demonstrou que a hipomania vai muito além da produtividade elevada ou do bom humor. Alterações em diferentes sistemas cerebrais influenciam emoções, comportamento, julgamento e tomada de decisões. Compreender esse fenômeno é fundamental para reduzir estigmas e promover uma visão mais humana da saúde mental.
Editorial
Vivemos um momento em que informações sobre saúde mental circulam em velocidade inédita. Redes sociais, vídeos curtos e conteúdos resumidos ampliaram o acesso ao conhecimento, mas também favoreceram simplificações que, muitas vezes, distorcem conceitos importantes da Psicologia e da Psiquiatria.
A série Psicologia Baseada em Evidências nasce justamente para seguir um caminho diferente.
Cada artigo é construído a partir da literatura científica contemporânea, respeitando os princípios éticos da profissão e traduzindo descobertas das Neurociências, da Psicologia e da Psiquiatria para uma linguagem acessível, sem abrir mão do rigor técnico.
O objetivo não é oferecer respostas definitivas nem substituir a avaliação clínica individual, mas aproximar a ciência da sociedade, estimular o pensamento crítico e contribuir para uma compreensão mais humana dos transtornos mentais.
Informação de qualidade não apenas amplia o conhecimento. Ela reduz preconceitos, favorece o diagnóstico precoce e fortalece o cuidado em saúde mental.
Entre a admiração e o desconhecimento
Dormir poucas horas e, ainda assim, sentir-se cheio de energia. Falar com entusiasmo, iniciar vários projetos simultaneamente, apresentar criatividade intensa e transmitir uma confiança aparentemente inabalável. Em uma cultura que valoriza produtividade constante e desempenho elevado, essas características costumam ser vistas como sinais de sucesso.
Não raramente, pessoas com esse perfil são descritas como “incansáveis”, “geniais”, “visionárias” ou simplesmente “muito motivadas”. Em alguns casos, tornam-se referências profissionais justamente pela capacidade de produzir mais do que a média.
Mas existe uma pergunta importante que raramente é feita:
E se essa energia não representar apenas entusiasmo?
A resposta exige cautela. Ter disposição, criatividade ou bom humor não significa, por si só, a presença de qualquer transtorno mental. Da mesma forma, pessoas naturalmente expansivas ou comunicativas não devem ser confundidas com indivíduos em episódio hipomaníaco.
Entretanto, quando essas mudanças aparecem de forma persistente, representam uma ruptura em relação ao funcionamento habitual da pessoa e passam a influenciar seu sono, seu pensamento, suas decisões e seus relacionamentos, a ciência recomenda um olhar mais atento.
É nesse ponto que surge a hipomania.
Embora frequentemente associada apenas ao Transtorno Bipolar tipo II, a hipomania representa muito mais do que um conjunto de comportamentos observáveis. Trata-se de um estado neurobiológico complexo, resultado da interação entre diferentes sistemas cerebrais responsáveis pela regulação das emoções, da motivação, da atenção, do controle inibitório e da percepção de recompensas.
Durante décadas, esse fenômeno foi interpretado quase exclusivamente sob uma perspectiva comportamental. Hoje, graças aos avanços das Neurociências, da genética e das técnicas modernas de neuroimagem, sabemos que episódios hipomaníacos estão associados a alterações mensuráveis em circuitos cerebrais específicos. Essas descobertas não eliminam a importância dos fatores psicológicos, familiares e sociais, mas ampliam nossa compreensão sobre a forma como o cérebro participa da construção da experiência humana.
Essa mudança de perspectiva tem consequências importantes.
Quando compreendemos que alterações do humor também envolvem processos biológicos complexos, torna-se mais difícil atribuir esses estados à “falta de força de vontade”, “fraqueza emocional” ou “defeitos de personalidade”. Em seu lugar, emerge uma compreensão mais ampla, que reconhece a interação entre biologia, história de vida, contexto social e funcionamento psicológico.
É justamente essa visão integrada que orienta a Psicologia baseada em evidências. Em vez de buscar explicações simplistas, ela procura compreender o ser humano em toda a sua complexidade.
Nos próximos tópicos, exploraremos o que a ciência já sabe sobre a hipomania, quais neurotransmissores participam desse processo, como essas alterações influenciam o comportamento e por que conhecer essa neurobiologia é essencial para reduzir estigmas e promover um cuidado mais qualificado em saúde mental.
O que é hipomania?
Antes de compreender o que acontece no cérebro durante um episódio hipomaníaco, é importante entender como esse estado é definido pela literatura científica.
Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR), a hipomania corresponde a um período claramente delimitado de humor persistentemente elevado, expansivo ou irritável, acompanhado por um aumento significativo da energia e da atividade dirigida a objetivos. Essas mudanças devem representar uma diferença perceptível em relação ao funcionamento habitual da pessoa e permanecer presentes por, no mínimo, quatro dias consecutivos.
Durante esse período, podem surgir manifestações como aumento da autoestima, redução da necessidade de sono, maior disposição física, aceleração da fala, pensamentos mais rápidos, facilidade para iniciar novos projetos, aumento da sociabilidade e maior envolvimento em atividades potencialmente prazerosas, mas que também podem implicar riscos.
É importante destacar que esses sinais não aparecem de forma isolada. O diagnóstico depende de uma avaliação clínica criteriosa, considerando a intensidade dos sintomas, sua duração, o impacto sobre o funcionamento da pessoa e a exclusão de outras condições médicas, uso de substâncias ou efeitos de medicamentos.
Um dos aspectos que mais geram dúvidas é a diferença entre hipomania e mania. Embora compartilhem diversas características, elas não são equivalentes.
Na mania, as alterações do humor e do comportamento costumam ser mais intensas, frequentemente comprometem de maneira significativa o funcionamento social e ocupacional e, em alguns casos, exigem hospitalização ou estão acompanhadas por sintomas psicóticos.
Na hipomania, por outro lado, o prejuízo funcional tende a ser mais discreto. Muitas pessoas continuam trabalhando, estudando ou mantendo suas atividades habituais, o que pode dificultar o reconhecimento do quadro tanto pelo próprio indivíduo quanto pelas pessoas ao seu redor.
Essa característica ajuda a explicar por que episódios hipomaníacos frequentemente passam despercebidos durante anos. Em vez de serem interpretados como um possível sinal clínico, podem ser confundidos com uma fase de alta produtividade, criatividade ou entusiasmo, especialmente em contextos sociais que valorizam desempenho constante.
Entretanto, a aparente vantagem inicial pode ocultar riscos importantes. O aumento da impulsividade, da autoconfiança e da busca por recompensas pode favorecer decisões precipitadas envolvendo relacionamentos, finanças, trabalho ou outros aspectos da vida cotidiana.
Por essa razão, compreender a hipomania exige ir além da observação do comportamento. É necessário entender também os mecanismos cerebrais que contribuem para esse estado. É justamente nesse ponto que os avanços das Neurociências oferecem contribuições valiosas, permitindo compreender como diferentes neurotransmissores interagem para produzir as alterações observadas durante um episódio hipomaníaco.
O cérebro durante a hipomania: uma orquestra neuroquímica em desequilíbrio
Durante muito tempo, os transtornos do humor foram compreendidos quase exclusivamente a partir da observação do comportamento. Atualmente, os avanços das Neurociências permitem uma compreensão muito mais ampla. Sabe-se que episódios hipomaníacos não resultam da ação de um único neurotransmissor ou de uma única região cerebral, mas da interação dinâmica entre diferentes sistemas responsáveis pela motivação, pelo controle das emoções, pela atenção, pelo sono e pela tomada de decisões.
Uma forma simples de imaginar esse funcionamento é pensar em uma orquestra. Em condições habituais, cada instrumento entra no momento adequado, respeitando o ritmo e a harmonia da música. Na hipomania, entretanto, alguns “instrumentos” passam a tocar mais alto do que deveriam, enquanto outros diminuem sua participação. O resultado é uma atividade cerebral mais acelerada, intensa e menos equilibrada.
Entre os principais sistemas envolvidos destacam-se a dopamina, a noradrenalina, a serotonina, o glutamato e o GABA. Cada um desempenha funções específicas, mas é a interação entre eles que contribui para as características clínicas observadas durante um episódio hipomaníaco.
É importante ressaltar que a ciência ainda busca compreender todos os mecanismos envolvidos. A neurobiologia da hipomania permanece um campo em constante evolução. Ainda assim, as evidências disponíveis já permitem identificar padrões consistentes que ajudam a explicar por que pessoas em hipomania costumam apresentar aumento de energia, redução da necessidade de sono, maior impulsividade, aceleração do pensamento e sensação de bem-estar incomum.
Essas alterações não significam que o cérebro esteja “funcionando melhor”. Na realidade, representam um estado de hiperativação de determinados circuitos neurais que pode comprometer o julgamento, favorecer decisões impulsivas e aumentar a vulnerabilidade a consequências pessoais, familiares, sociais e profissionais.
Outro aspecto importante é compreender que nenhum neurotransmissor atua de forma isolada. O cérebro funciona como uma rede altamente integrada. Quando um sistema aumenta excessivamente sua atividade, outros podem tentar compensar essa mudança ou, em alguns casos, tornar o desequilíbrio ainda mais intenso. Essa interação explica por que os sintomas da hipomania variam de uma pessoa para outra e por que diferentes pacientes podem apresentar manifestações clínicas distintas, mesmo compartilhando o mesmo diagnóstico.
Nos próximos tópicos, analisaremos cada um desses sistemas separadamente, compreendendo como participam da construção da experiência hipomaníaca e quais evidências científicas sustentam esse conhecimento.
Se existe um sistema que mais desperta interesse dos pesquisadores quando se fala em hipomania, esse sistema é o dopaminérgico. Sua participação ajuda a compreender por que muitas pessoas descrevem esse período como uma fase de intensa energia, criatividade e sensação de que “tudo é possível”.
Dopamina: quando o sistema de recompensa acelera
Entre todos os neurotransmissores estudados na hipomania, a dopamina ocupa um lugar de destaque. Ela participa de funções fundamentais para a vida cotidiana, como motivação, aprendizagem, busca por recompensas, tomada de decisões e sensação de prazer. Em condições normais, esse sistema nos incentiva a perseguir objetivos, concluir tarefas e repetir comportamentos considerados benéficos para a sobrevivência e o bem-estar.
Durante episódios hipomaníacos, diferentes estudos sugerem um aumento da atividade dopaminérgica, especialmente nas vias mesolímbica e mesocortical, regiões cerebrais diretamente relacionadas ao processamento de recompensas, à motivação e às funções executivas. Essa hiperatividade ajuda a explicar por que muitas pessoas relatam sentir-se extraordinariamente capazes, criativas e confiantes durante esses períodos.
Na prática, esse aumento pode se manifestar por meio de uma energia aparentemente inesgotável, entusiasmo intenso, maior facilidade para iniciar projetos e uma forte sensação de que obstáculos podem ser superados com facilidade. Tarefas que antes pareciam cansativas passam a ser executadas com rapidez, enquanto novos objetivos surgem continuamente.
Essa experiência costuma ser descrita por alguns pacientes como um momento em que “a mente parece funcionar mais rápido” ou em que “as ideias simplesmente não param de surgir”. Embora essas percepções possam ser inicialmente agradáveis, elas também representam um importante desafio para o equilíbrio emocional.
O mesmo sistema cerebral que amplia a motivação também reduz a percepção dos riscos envolvidos em determinadas decisões. Assim, comportamentos impulsivos, investimentos financeiros precipitados, compras excessivas, envolvimento em atividades potencialmente perigosas ou mudanças importantes de vida podem ocorrer com maior frequência durante episódios hipomaníacos.
Do ponto de vista neuropsicológico, isso acontece porque o cérebro passa a atribuir um valor excessivamente positivo às recompensas imediatas, enquanto a avaliação das possíveis consequências negativas perde parte de sua influência sobre o processo decisório. Em outras palavras, a expectativa de ganho tende a superar a percepção do risco.
É importante destacar que a dopamina não deve ser compreendida como o “neurotransmissor da felicidade”. Essa é uma simplificação frequentemente encontrada em conteúdos populares, mas que não representa adequadamente o conhecimento científico atual. Seu papel é muito mais amplo e envolve a atribuição de importância aos estímulos, o direcionamento da atenção para objetivos e a motivação para agir.
Na hipomania, portanto, o problema não é simplesmente “ter mais dopamina”, mas sim o desequilíbrio na forma como esse sistema interage com outros circuitos cerebrais responsáveis pelo autocontrole, pela regulação emocional e pelo julgamento.
Essa compreensão é fundamental para evitar interpretações equivocadas. O aumento da energia e da produtividade observado em alguns episódios não representa um funcionamento cerebral “superior”, mas um estado de hiperativação que pode trazer benefícios aparentes no curto prazo e consequências importantes quando não é reconhecido e adequadamente acompanhado.
Se a dopamina impulsiona o cérebro em direção às recompensas, outro sistema atua aumentando o estado de alerta e a mobilização de energia do organismo. É nesse contexto que a noradrenalina desempenha um papel igualmente importante na compreensão da hipomania.
Noradrenalina: quando o cérebro permanece em estado de alerta
Se a dopamina pode ser comparada ao combustível que impulsiona a motivação, a noradrenalina funciona como um sistema de mobilização. Produzida principalmente no locus coeruleus, uma pequena estrutura localizada no tronco encefálico, ela participa da regulação da atenção, do estado de vigília, da velocidade de processamento das informações e da preparação do organismo para responder às demandas do ambiente.
Em situações cotidianas, esse sistema é essencial. Ele nos ajuda a despertar pela manhã, manter a concentração durante uma conversa, reagir rapidamente diante de um perigo e direcionar energia para tarefas importantes. Em outras palavras, a noradrenalina atua como um mecanismo que mantém o cérebro em estado de prontidão.
Durante episódios hipomaníacos, estudos sugerem um aumento da atividade desse sistema. Como consequência, muitas pessoas experimentam uma sensação persistente de energia, redução da fadiga e maior disposição para realizar atividades físicas, intelectuais e sociais.
Na prática clínica, esse aumento pode se manifestar por meio de uma fala mais acelerada, maior facilidade para iniciar conversas, necessidade constante de permanecer ocupado e dificuldade para permanecer em repouso. Algumas pessoas descrevem a sensação como se estivessem “ligadas o tempo todo”, incapazes de desacelerar mesmo quando reconhecem a necessidade de descansar.
Esse estado de ativação também ajuda a explicar um dos sinais mais característicos da hipomania: a redução da necessidade de sono. Diferentemente da insônia, em que o indivíduo deseja dormir, mas não consegue, durante a hipomania muitas pessoas relatam sentir-se descansadas mesmo após poucas horas de sono. Ainda que essa percepção seja subjetivamente agradável, ela não significa que o organismo esteja recuperando plenamente suas funções fisiológicas.
Com a manutenção desse estado de hiperativação, o cérebro permanece exposto a um desgaste progressivo. A longo prazo, essa sobrecarga pode favorecer irritabilidade, dificuldade para manter a atenção, aumento da impulsividade e, em alguns casos, contribuir para a evolução do episódio ou para alterações posteriores do humor.
Outro aspecto importante é que a noradrenalina influencia diretamente a forma como interpretamos os estímulos ao nosso redor. Quando esse sistema está excessivamente ativado, acontecimentos cotidianos podem parecer mais urgentes, relevantes ou estimulantes do que realmente são. Isso favorece uma sensação constante de movimento, rapidez e necessidade de agir imediatamente.
Embora esse aumento de energia possa ser percebido como algo positivo nos primeiros momentos, ele também reduz a capacidade de reconhecer os próprios limites físicos e emocionais. Assim, compromissos se acumulam, projetos são iniciados simultaneamente e o ritmo acelerado passa a ser mantido à custa de um esforço fisiológico que dificilmente poderá ser sustentado por longos períodos.
Por esse motivo, compreender a participação da noradrenalina ajuda a explicar por que a hipomania não se resume a “ter mais disposição”. Trata-se de um estado neurobiológico em que mecanismos originalmente adaptativos permanecem ativados por tempo prolongado, alterando o equilíbrio entre desempenho, descanso e autorregulação.
Se a dopamina favorece a busca por recompensas e a noradrenalina mantém o cérebro em permanente estado de alerta, outro sistema exerce uma função igualmente importante: modular emoções, impulsos e respostas comportamentais. É justamente nesse contexto que a serotonina desempenha um papel essencial na compreensão da hipomania.
Serotonina: equilíbrio emocional e controle dos impulsos
Entre os neurotransmissores mais conhecidos pelo público, a serotonina costuma ser associada, de maneira simplificada, à sensação de bem-estar. Embora participe da regulação do humor, sua atuação é muito mais abrangente. A serotonina influencia processos relacionados ao controle dos impulsos, à estabilidade emocional, ao sono, ao apetite, à percepção da dor e à capacidade de adaptação diante das mudanças do ambiente.
Em um cérebro saudável, esse sistema funciona como um importante modulador. Em vez de determinar isoladamente nossas emoções, ele contribui para que diferentes respostas emocionais ocorram de maneira proporcional às circunstâncias vividas. É justamente essa capacidade de modulação que favorece maior equilíbrio diante de situações de estresse, frustração ou entusiasmo.
Na hipomania, diversos estudos apontam que esse sistema pode apresentar alterações funcionais. Ainda que os mecanismos exatos permaneçam em investigação, as evidências sugerem que uma redução da modulação serotoninérgica pode contribuir para dificuldades no controle inibitório e para maior intensidade das respostas emocionais.
Na prática clínica, isso significa que emoções e impulsos podem surgir com maior rapidez e intensidade, tornando mais difícil interromper comportamentos iniciados ou avaliar cuidadosamente suas possíveis consequências. Pequenos estímulos podem adquirir grande importância, enquanto decisões potencialmente arriscadas passam a parecer plenamente justificáveis naquele momento.
Esse funcionamento ajuda a compreender por que algumas pessoas em episódio hipomaníaco demonstram entusiasmo intenso em determinadas situações e, pouco tempo depois, podem reagir com irritabilidade diante de pequenas contrariedades. Não se trata de instabilidade emocional no sentido comum da expressão, mas da dificuldade do cérebro em modular adequadamente diferentes estados afetivos.
É importante destacar que essas alterações não significam ausência de responsabilidade ou incapacidade completa de autocontrole. A maioria das pessoas preserva algum grau de crítica sobre seus comportamentos. Entretanto, a combinação entre aumento da motivação, maior estado de alerta e redução da capacidade de inibição cria um contexto em que decisões impulsivas tornam-se significativamente mais prováveis.
Outro aspecto frequentemente negligenciado é que a serotonina participa da comunicação entre diferentes regiões cerebrais responsáveis pelo planejamento, pela antecipação de consequências e pela regulação das emoções. Quando esse equilíbrio é alterado, não apenas o humor se modifica, mas também a forma como a pessoa interpreta acontecimentos, avalia riscos e reage às próprias experiências.
Essas observações reforçam uma ideia central da Psicologia baseada em evidências: nenhum comportamento humano pode ser explicado por um único neurotransmissor. A hipomania emerge da interação entre diversos sistemas cerebrais, e a serotonina representa apenas uma das peças desse complexo funcionamento neurobiológico.
Se dopamina, noradrenalina e serotonina ajudam a compreender alterações relacionadas ao humor e ao comportamento, dois outros sistemas exercem papel decisivo no equilíbrio da atividade cerebral: o glutamato e o GABA. Enquanto um atua como o principal neurotransmissor excitatório do cérebro, o outro funciona como seu principal mecanismo de inibição. O equilíbrio entre ambos é essencial para compreender por que a mente parece acelerar durante a hipomania.
Glutamato e GABA: o acelerador e o freio do cérebro
Se a dopamina, a noradrenalina e a serotonina ajudam a compreender aspectos relacionados ao humor, à motivação e ao comportamento, dois outros neurotransmissores desempenham um papel igualmente essencial para o funcionamento cerebral: o glutamato e o GABA (ácido gama-aminobutírico).
Esses dois sistemas podem ser compreendidos como forças complementares. Enquanto o glutamato representa o principal neurotransmissor excitatório do sistema nervoso central, o GABA exerce a função oposta, atuando como o principal neurotransmissor inibitório. O equilíbrio entre ambos é indispensável para que o cérebro mantenha um funcionamento organizado, eficiente e adaptativo.
Em condições habituais, essa interação permite que pensamentos, emoções e comportamentos ocorram de maneira coordenada. O glutamato favorece a transmissão de informações entre os neurônios, enquanto o GABA impede que essa atividade se torne excessiva. É justamente essa dinâmica que possibilita concentração, aprendizagem, planejamento e controle do comportamento.
Durante episódios hipomaníacos, diferentes pesquisas sugerem um aumento da atividade glutamatérgica associado a uma redução relativa da atividade GABAérgica. Embora esses mecanismos ainda estejam sendo investigados, as evidências apontam que esse desequilíbrio contribui para um estado de hiperatividade cerebral característico da hipomania.
Na prática, esse fenômeno pode ser percebido como uma sensação de que os pensamentos surgem em velocidade incomum. Ideias aparecem sucessivamente, novos projetos são iniciados antes da conclusão dos anteriores e o cérebro parece permanecer em funcionamento contínuo, mesmo durante momentos que normalmente seriam destinados ao descanso.
Muitas pessoas descrevem essa experiência utilizando expressões como “minha mente não desliga”, “as ideias vêm todas ao mesmo tempo” ou “parece que estou sempre um passo à frente”. Embora essas sensações possam ser interpretadas inicialmente como sinais de criatividade ou alto desempenho intelectual, elas também refletem uma dificuldade crescente em desacelerar a atividade cerebral.
Ao mesmo tempo, a redução da influência inibitória exercida pelo GABA diminui a capacidade do cérebro de interromper pensamentos, controlar impulsos e regular comportamentos. Como consequência, decisões podem ser tomadas de forma mais rápida, com menor tempo para reflexão e avaliação de riscos.
É importante compreender que o glutamato e o GABA não são adversários. Pelo contrário, eles trabalham em permanente cooperação. O problema surge quando esse delicado equilíbrio é rompido. Um cérebro excessivamente excitado tende a perder parte da capacidade de organizar suas próprias respostas, favorecendo um funcionamento intenso, porém menos regulado.
Essa compreensão ajuda a explicar por que a hipomania não deve ser interpretada como um estado de “funcionamento cerebral superior”. Ainda que algumas habilidades pareçam temporariamente ampliadas, a redução dos mecanismos naturais de controle aumenta a vulnerabilidade a erros de julgamento, impulsividade e consequências indesejadas.
Sob essa perspectiva, a Neurociência reforça uma mensagem importante: saúde mental não depende apenas de mais atividade cerebral, mas da capacidade do cérebro de manter equilíbrio entre sistemas que aceleram e sistemas que regulam seu funcionamento.
Conhecer o papel dos neurotransmissores é fundamental para compreender a hipomania, mas existe um erro frequente que precisa ser evitado: acreditar que um único sintoma, como impulsividade, criatividade intensa ou redução da necessidade de sono, seja suficiente para estabelecer um diagnóstico. É justamente sobre esse ponto que trataremos na próxima seção: por que impulsividade, isoladamente, não caracteriza hipomania.
Por que impulsividade, isoladamente, não caracteriza hipomania
Em uma época marcada pela ampla divulgação de informações sobre saúde mental nas redes sociais, tornou-se comum associar comportamentos específicos a diagnósticos psiquiátricos. Entre esses comportamentos, a impulsividade talvez seja um dos exemplos mais frequentes.
É verdade que pessoas em episódio hipomaníaco podem apresentar maior impulsividade. Entretanto, concluir que uma pessoa está em hipomania apenas porque age impulsivamente representa uma simplificação incompatível com o conhecimento científico atual.
A impulsividade é um fenômeno psicológico complexo, presente em diferentes condições clínicas e também na população geral. Ela pode estar relacionada ao desenvolvimento da personalidade, ao contexto em que a pessoa vive, ao uso de substâncias psicoativas, a alterações neurológicas, a outros transtornos mentais e, em muitos casos, simplesmente a características individuais que não configuram qualquer diagnóstico.
Por esse motivo, a Psicologia e a Psiquiatria não trabalham com diagnósticos baseados em sintomas isolados. O raciocínio clínico considera um conjunto de informações que inclui a história de vida, a evolução temporal dos sintomas, o contexto em que surgiram, seu impacto sobre o funcionamento da pessoa e a presença de outros sinais clinicamente relevantes.
No caso da hipomania, o diagnóstico depende da identificação de uma mudança clara em relação ao funcionamento habitual do indivíduo. Essa mudança deve envolver aumento persistente do humor ou da irritabilidade, elevação da energia, redução da necessidade de sono e outras manifestações características descritas pelos critérios diagnósticos internacionais.
Além disso, é indispensável avaliar se essas alterações podem ser explicadas por outras condições médicas, efeitos de medicamentos, uso de substâncias ou diferentes transtornos psiquiátricos que apresentam sintomas semelhantes.
Essa análise cuidadosa é um dos pilares da prática baseada em evidências. Ela protege tanto contra o risco de deixar de reconhecer um transtorno que necessita de acompanhamento quanto contra o perigo oposto: atribuir um diagnóstico inadequado a partir de informações insuficientes.
Nos últimos anos, observa-se um crescimento expressivo da chamada “patologização do comportamento cotidiano”. Emoções naturais, traços de personalidade e dificuldades comuns da vida passaram, em alguns contextos, a ser interpretados como sinais inequívocos de transtornos mentais. Embora a ampliação do debate sobre saúde mental tenha produzido avanços importantes, ela também exige responsabilidade na forma como utilizamos conceitos diagnósticos.
O conhecimento científico nos convida justamente ao contrário: substituir respostas rápidas por avaliações cuidadosas, respeitando a singularidade de cada pessoa e a complexidade do funcionamento humano.
Por essa razão, reconhecer sinais de sofrimento psíquico é importante, mas somente uma avaliação clínica abrangente, realizada por profissionais habilitados, pode estabelecer um diagnóstico confiável e orientar o tratamento mais adequado.
Compreender a neurobiologia da hipomania amplia nosso conhecimento sobre os mecanismos envolvidos nesse estado clínico, mas não substitui a avaliação humana e individualizada. É justamente nessa integração entre ciência e cuidado que Psicologia e Psiquiatria desempenham papéis complementares, tema que abordaremos na próxima seção.
O papel da Psicologia e da Psiquiatria: integrando ciência e cuidado
Os avanços das Neurociências transformaram profundamente nossa compreensão sobre os transtornos do humor. Hoje sabemos que a hipomania envolve alterações em circuitos cerebrais relacionados à motivação, à recompensa, ao controle inibitório, ao sono e à regulação das emoções. Entretanto, esse conhecimento não substitui aquilo que continua sendo o elemento central da prática clínica: compreender a pessoa em sua singularidade.
Nenhum exame de imagem, teste laboratorial ou marcador biológico é capaz, isoladamente, de confirmar um episódio hipomaníaco. Embora as pesquisas tenham identificado alterações consistentes em diferentes sistemas neuroquímicos, o diagnóstico permanece essencialmente clínico e depende de uma avaliação cuidadosa realizada por profissionais habilitados.
Essa avaliação vai muito além da identificação de sintomas. Ela considera a história de vida da pessoa, seu funcionamento habitual, os acontecimentos recentes, a presença de fatores de estresse, antecedentes familiares, condições médicas, uso de medicamentos, consumo de substâncias e o impacto das alterações observadas em diferentes áreas da vida.
É justamente nessa integração entre evidências científicas e compreensão da experiência humana que Psicologia e Psiquiatria atuam de forma complementar.
Quando indicado, o médico psiquiatra é responsável pela investigação diagnóstica, pela avaliação das condições clínicas associadas e pela definição da necessidade de tratamento medicamentoso. O psicólogo, por sua vez, contribui para compreender como essas alterações repercutem na vida da pessoa, auxiliando na identificação de padrões de comportamento, no fortalecimento da consciência sobre os próprios sinais de alerta e no desenvolvimento de estratégias que favoreçam maior estabilidade emocional e qualidade de vida.
A psicoterapia também desempenha papel importante na psicoeducação. Compreender o próprio funcionamento psicológico permite reconhecer precocemente mudanças de humor, identificar fatores desencadeantes, desenvolver habilidades de autorregulação emocional e fortalecer a adesão ao tratamento quando necessário.
Essa abordagem integrada encontra respaldo nas principais diretrizes internacionais para o cuidado de pessoas com transtornos do humor, que recomendam a combinação de intervenções psicológicas, acompanhamento psiquiátrico quando indicado e participação ativa do paciente no processo terapêutico.
Mais do que controlar sintomas, o objetivo do tratamento é promover autonomia, reduzir o sofrimento e favorecer um funcionamento saudável nas diferentes áreas da vida. Em outras palavras, cuidar da saúde mental significa olhar para além do diagnóstico e reconhecer a pessoa em toda a sua complexidade.
Considerações finais: compreender para reduzir o estigma
Ao longo das últimas décadas, a ciência modificou profundamente a forma como compreendemos os transtornos do humor. O que antes era frequentemente interpretado como excesso de entusiasmo, fraqueza de caráter ou simples traço de personalidade hoje pode ser compreendido à luz de evidências que revelam a participação de complexos sistemas cerebrais na regulação das emoções e do comportamento.
Entretanto, reconhecer a dimensão biológica da hipomania não significa reduzir o ser humano aos seus neurotransmissores. Cada pessoa continua sendo resultado da interação entre fatores biológicos, psicológicos, familiares, culturais e sociais. É justamente essa perspectiva integrada que orienta a prática clínica baseada em evidências.
Da mesma forma, conhecer os mecanismos envolvidos não deve servir para estimular autodiagnósticos ou interpretações precipitadas. Pelo contrário. Quanto maior o conhecimento científico, maior deve ser o compromisso com avaliações responsáveis, individualizadas e fundamentadas.
Talvez uma das maiores contribuições da ciência seja justamente esta: substituir julgamentos por compreensão.
Quando entendemos que alterações do humor envolvem mudanças reais no funcionamento cerebral, tornamo-nos mais capazes de acolher o sofrimento humano sem recorrer ao preconceito. E quando unimos esse conhecimento à escuta, à ética e ao cuidado, damos um passo importante em direção a uma sociedade que compreende a saúde mental de forma mais responsável e mais humana.
Porque, em Psicologia, compreender nunca é apenas conhecer. É também uma forma de cuidar.
Referências
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- STAHL, Stephen M. Stahl's essential psychopharmacology: neuroscientific basis and practical applications. 5. ed. Cambridge: Cambridge University Press, 2021. ISBN 978-1-108-83857-8.
Jandré Lopes
Psicólogo – CRP 06/215909
Especialista em Psicopatologia • Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) • Formação em DBT • Treinador de Habilidades em DBT • Protocolo CAMS para prevenção do suicídio.
Autor
Jandré Gomes Lopes de Souza
Psicólogo · CRP 06/215909 · Guarulhos/SP
Psicólogo clínico com especialização em Psicopatologia e Terapias Cognitivo-Comportamentais, formações em Terapia Comportamental Dialética (DBT) e no Protocolo CAMS. Atende adultos de forma presencial em Guarulhos/SP e online.
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