Elize Matsunaga tinha Transtorno de Personalidade Borderline? O que a psicologia realmente pode afirmar

Sempre que um caso criminal de grande repercussão volta ao noticiário — como o de Elize Matsunaga —, uma pergunta reaparece nas redes sociais e nas rodas de conversa: “ela tinha Transtorno de Personalidade Borderline?”. A pergunta é compreensível. A resposta honesta, do ponto de vista técnico, é menos confortável do que o público costuma esperar.
Este texto não tem qualquer intenção de diagnosticar, julgar ou rotular alguém. O objetivo é oposto: usar um caso amplamente comentado para explicar o que a psicologia pode afirmar com responsabilidade, o que ela não pode afirmar em hipótese alguma, e por que essa diferença importa tanto para quem realmente convive com sofrimento emocional intenso.
Por que nenhum psicólogo pode diagnosticar alguém pela televisão
Um diagnóstico psicológico não é uma opinião formada a partir de comportamentos observados à distância. Ele exige avaliação clínica direta, entrevistas conduzidas ao longo do tempo, história de vida detalhada, exame do funcionamento atual da pessoa e, frequentemente, informações complementares de familiares e de outros profissionais de saúde.
Nada disso pode ser obtido por documentários, reportagens ou trechos editados de depoimentos. Material midiático é construído para narrar uma história, não para avaliar uma mente. Ele seleciona cenas, corta contextos e organiza os fatos em torno de um enredo — exatamente o oposto do que uma avaliação psicológica precisa fazer.
Existe ainda uma dimensão ética. O Código de Ética Profissional do Psicólogo veda emitir diagnósticos ou juízos sobre pessoas que não estão em atendimento, assim como usar casos concretos para sensacionalismo. Quando um profissional afirma publicamente que determinada pessoa “tem borderline”, ele não está praticando psicologia: está praticando especulação com verniz técnico.
Diagnóstico não é adjetivo. É uma hipótese clínica construída com a pessoa, dentro de um processo de avaliação — e sempre revisável.
O que é, de fato, o Transtorno de Personalidade Borderline
O Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) é caracterizado, em linhas gerais, por um padrão persistente de instabilidade nas relações interpessoais, na autoimagem e nos afetos, associado a impulsividade acentuada. Esse padrão precisa ser estável ao longo do tempo, iniciar-se no início da vida adulta e aparecer em diferentes contextos da vida da pessoa.
Os critérios descritos na literatura diagnóstica incluem, entre outros:
- esforços intensos para evitar abandono real ou imaginado;
- relações interpessoais instáveis e intensas, com alternância entre idealização e desvalorização;
- perturbação da identidade, com instabilidade persistente da autoimagem;
- impulsividade em pelo menos duas áreas potencialmente danosas;
- comportamentos, gestos ou ameaças autolesivas recorrentes;
- instabilidade afetiva decorrente de reatividade acentuada do humor;
- sentimentos crônicos de vazio;
- raiva intensa e inadequada, ou dificuldade de controlá-la;
- ideação paranoide transitória ou sintomas dissociativos graves em situações de estresse.
Repare em algo essencial: nenhum desses critérios é “cometer um crime”. O TPB descreve uma forma de sofrimento — sobretudo emocional e relacional —, não um perfil criminal. A maioria absoluta das pessoas com o diagnóstico jamais praticou qualquer ato violento contra outra pessoa. O sofrimento, quando se volta contra alguém, costuma voltar-se contra si mesma.
O erro mais comum: confundir intensidade emocional com diagnóstico
Ciúme, medo de abandono, brigas intensas, arrependimento e impulsividade são experiências humanas comuns. Elas aparecem em relacionamentos difíceis, em períodos de crise e em contextos de violência doméstica sem que exista qualquer transtorno de personalidade envolvido.
Transformar essas experiências em diagnóstico faz duas vítimas. A primeira é a precisão técnica: o termo perde sentido clínico e vira gíria para “pessoa difícil” ou “pessoa perigosa”. A segunda, mais grave, são as pessoas que realmente convivem com o transtorno e passam a ser vistas com medo — inclusive por profissionais de saúde, o que atrasa tratamentos que funcionam.
Estigma: o custo real das explicações fáceis
Quando um caso criminal é explicado por um diagnóstico, a narrativa fica simples e satisfatória. O preço dessa simplicidade é pago no consultório. Pacientes com TPB frequentemente chegam à terapia acreditando que são “tóxicos”, “manipuladores” ou “sem solução” — descrições absorvidas da internet, não de qualquer avaliação séria.
Esse estigma tem consequências concretas: adiamento da busca por ajuda, abandono precoce do tratamento, vergonha de relatar sintomas e piora do isolamento social. Reduzir o estigma não é uma preocupação apenas ideológica; é parte do que torna o tratamento possível.
O que a psicologia pode afirmar com segurança
Se o diagnóstico à distância está fora de questão, ainda assim há muito que pode ser afirmado com base em evidência:
- Desregulação emocional é tratável, e existem protocolos com eficácia comprovada.
- Transtorno de Personalidade Borderline não é sinônimo de violência contra outras pessoas.
- O prognóstico com tratamento adequado é significativamente melhor do que o senso comum sugere.
- Diagnóstico é ferramenta de cuidado e planejamento terapêutico, nunca sentença moral.
Como o tratamento realmente funciona: DBT e TCC
A Terapia Comportamental Dialética (DBT) foi desenvolvida especificamente para pessoas com desregulação emocional intensa e comportamentos autolesivos, e é hoje uma das abordagens mais estudadas para o TPB. Ela combina terapia individual, treino de habilidades e estratégias de manejo de crise.
Os quatro módulos de habilidades da DBT
- Mindfulness: observar a própria experiência sem reagir automaticamente a ela.
- Tolerância ao mal-estar: atravessar momentos de crise sem piorar a situação.
- Regulação emocional: compreender, nomear e modular emoções intensas.
- Efetividade interpessoal: pedir, recusar e negociar preservando relações e autorrespeito.
As Terapias Cognitivo-Comportamentais (TCC), por sua vez, ajudam a identificar padrões de pensamento e comportamento que mantêm o sofrimento, testando-os na prática e construindo alternativas mais funcionais. Em quadros de risco, protocolos específicos de avaliação e manejo — como o CAMS — organizam o cuidado de forma colaborativa e estruturada.
O ponto central é que a mudança não depende de força de vontade nem de “controle emocional” abstrato. Depende de habilidades aprendidas, treinadas e aplicadas — o que é ensinável e mensurável.
Se você se reconheceu neste texto
Ler sobre critérios diagnósticos costuma provocar identificação. Isso não significa que você tenha um transtorno; significa que vale conversar com um profissional. Uma avaliação psicológica cuidadosa esclarece o que está acontecendo, diferencia hipóteses e define um plano de tratamento adequado ao seu caso.
Se há risco imediato à vida, procure atendimento de urgência ou ligue para o CVV (188), disponível 24 horas, gratuitamente.
Conclusão
Então, Elize Matsunaga tinha Transtorno de Personalidade Borderline? A psicologia responsável responde: não é possível — nem ético — afirmar. O que é possível afirmar é que diagnósticos não explicam crimes, que estigma atrasa tratamento e que sofrimento emocional intenso tem caminhos clínicos concretos.
Trocar a curiosidade por informação qualificada é o que transforma um caso midiático em algo útil: mais gente entendendo que existe tratamento, e menos gente com medo de procurá-lo.