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Artigo | Transtorno Bipolar Tipo II

A hipomania que ninguém percebe

Transtorno Bipolar Tipo II: critérios diagnósticos, raciocínio clínico e exemplos da vida real

Por Jandré Lopes — Psicólogo — CRP 06/215909

Divulgação científicaPsicologia baseada em evidênciasLeitura aproximada: 25 minutos

Artigo de divulgação científica baseado em evidências.

Uma pessoa procura ajuda porque não consegue sair da cama, perdeu o interesse por tudo e pensa que a vida deixou de fazer sentido. Ao ser perguntada se já teve períodos de energia incomum, responde: ‘Sim, mas naquela época eu estava ótima’. Dormia três horas, iniciou dois projetos, falava sem parar, gastou além do planejado e parecia mais confiante. Ninguém chamou aquilo de sintoma. Todos celebraram sua ‘melhor fase’. Essa assimetria é uma das razões pelas quais o tipo II permanece invisível: a depressão pede socorro; a hipomania raramente se apresenta como problema.

Meu ponto de partida é essa assimetria: a depressão chega narrada como adoecimento; a hipomania costuma ser lembrada como identidade, produtividade ou recuperação. Por isso, este texto não se limita a repetir o DSM-5-TR. Ele mostra como reconstruir episódios, contrasta o manual com a CID-11 e explicita as zonas em que o julgamento clínico é indispensável. Os exemplos são fictícios e não autorizam autodiagnóstico nem conclusão baseada em uma semana de maior disposição.

1. O que define o Transtorno Bipolar Tipo II

O núcleo diagnóstico é uma história de pelo menos um episódio hipomaníaco e pelo menos um episódio depressivo maior, sem qualquer episódio maníaco ao longo da vida.

Além disso, os episódios não podem ser explicados melhor por transtornos psicóticos; a alteração não pode decorrer apenas de substância, medicamento ou condição médica; e o padrão precisa produzir sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento — muitas vezes pela depressão recorrente, pela instabilidade entre episódios ou pelas consequências do comportamento durante a hipomania.

O tipo II costuma ser falsamente chamado de ‘mais brando’. A revisão de estado da arte publicada pela World Psychiatric Association em 2025 destaca prejuízo funcional e cognitivo relevante, alta carga depressiva e risco de comportamento suicida pelo menos comparável ao observado no tipo I. Em estudos longitudinais, os episódios depressivos superam amplamente os hipomaníacos; a revisão estima uma razão aproximada de 39 para 1. O peso clínico do transtorno está frequentemente no polo que menos aparece no nome: a depressão.

2. Episódio hipomaníaco: o critério que costuma escapar

No modelo DSM-5-TR, a hipomania exige um período claramente delimitado de humor anormalmente elevado, expansivo ou irritável e aumento persistente de energia ou atividade, presente na maior parte do dia, quase todos os dias, por pelo menos quatro dias consecutivos. Deve existir uma mudança inequívoca em relação ao funcionamento habitual, observável por outras pessoas. São necessários três sintomas adicionais — ou quatro quando o humor é apenas irritável.

A mudança é clinicamente real, mas não alcança a intensidade da mania: não causa prejuízo acentuado, não exige hospitalização e não contém psicose. Isso não significa ausência de consequências. Uma pessoa pode manter o emprego e, ainda assim, contrair dívidas, desgastar relações, assumir compromissos inviáveis ou precipitar uma depressão posterior.

As seis condições que precisam coexistir

Um episódio hipomaníaco completo reúne seis níveis de evidência: duração suficiente; humor e energia/atividade alterados; número mínimo de sintomas; mudança inequívoca do funcionamento; observabilidade por terceiros; e gravidade abaixo do limiar de mania. A exclusão de substâncias e causas médicas atravessa todos esses níveis. Se um deles falta, pode existir ativação subclínica ou outro transtorno do espectro bipolar, mas não se deve simplesmente arredondar o caso para bipolar II.

Duração: quatro dias não são uma verdade biológica

O ponto de corte de quatro dias do DSM-5-TR aumenta a confiabilidade entre avaliadores, mas permanece debatido. Estudos encontram apresentações de dois ou três dias com validadores de bipolaridade; por isso, o DSM oferece categorias de ‘outro transtorno bipolar e relacionado’ para hipomania de curta duração com depressão maior. A CID-11 utiliza formulação menos rígida — ‘vários dias’ — e enfatiza mudança característica do funcionamento. Clinicamente, duração abaixo do limiar merece registro e seguimento, não invisibilidade; contudo, não autoriza declarar que o critério formal foi preenchido.

Elevado, expansivo ou irritável: três portas diferentes

Humor elevado envolve euforia ou bem-estar acima do habitual. Expansividade aparece como desinibição, familiaridade excessiva, sociabilidade invasiva ou sensação de que limites comuns não se aplicam. Irritabilidade pode dominar: impaciência, hostilidade a obstáculos e explosões quando outros tentam desacelerar a pessoa. Quando não há elevação nem expansividade e o humor é somente irritável, o limiar sobe de três para quatro sintomas associados porque irritabilidade isolada é altamente inespecífica.

Mudança de funcionamento não é o mesmo que prejuízo grave

O funcionamento muda de modo inequívoco, mas não fica marcadamente comprometido. Essa fronteira é sutil. Ser ‘mais produtivo’ não exclui hipomania; ser improdutivo não transforma automaticamente o episódio em mania. O clínico avalia qualidade, sustentabilidade, controle, consequências e necessidade de intervenção. Hospitalização ou psicose durante elevação classificam o episódio como maníaco; prejuízo acentuado também aponta para mania.

Observável por outros — mas não necessariamente reconhecida como doença

Familiares podem confirmar que a pessoa estava diferente e, ao mesmo tempo, considerar a mudança positiva. Comentários como ‘voltou a ser ela mesma’, ‘estava imparável’ ou ‘nunca produziu tanto’ são dados clínicos, não veredictos. A ausência de observador disponível não prova ausência do fenômeno; exige maior cautela, reconstrução de rastros objetivos e acompanhamento prospectivo.

2.1 Autoestima inflada ou grandiosidade

A autoconfiança ultrapassa o padrão habitual. A pessoa se percebe excepcionalmente capaz, influente ou destinada a realizações improváveis. Na hipomania, a crença pode ser exagerada, mas não deve atingir intensidade delirante.

2.2 Necessidade reduzida de sono

Não é apenas dormir pouco e ficar cansado. A pessoa dorme muito menos do que o habitual e ainda se sente descansada, alerta ou energizada. Essa distinção separa necessidade reduzida de sono de insônia.

2.3 Fala aumentada ou pressão para continuar falando

A fala torna-se mais abundante, rápida, alta ou difícil de interromper. O interlocutor pode sentir que não encontra espaço para participar.

2.4 Fuga de ideias ou experiência subjetiva de pensamentos acelerados

As associações surgem com velocidade incomum. A pessoa pode saltar de um plano a outro porque cada ideia dispara várias outras; às vezes relata que a boca não acompanha a mente.

2.5 Distratibilidade

Estímulos externos irrelevantes ou ideias internas capturam a atenção com facilidade incomum, interrompendo a tarefa em curso.

2.6 Aumento de atividade dirigida a objetivos ou agitação psicomotora

Há aceleração observável em atividades sociais, profissionais, acadêmicas, sexuais ou domésticas; alternativamente, inquietação sem direção produtiva.

2.7 Envolvimento excessivo em atividades com potencial de consequências dolorosas

A combinação de energia, otimismo e menor avaliação de risco favorece gastos, investimentos, sexo, direção perigosa, apostas ou decisões profissionais imprudentes.

Hipomania não é felicidade, extroversão nem alto desempenho

Comparação entre melhora saudável e hipomania provável
Pergunta clínicaMelhora saudávelHipomania provável
SonoDorme adequadamente e sente-se restaurado.Dorme muito menos e não sente necessidade de compensar.
ControleConsegue desacelerar e priorizar.A aceleração parece autônoma; planos se multiplicam.
CoerênciaMetas combinam com valores e contexto.Metas surgem abruptamente, com confiança desproporcional.
ObservadoresOutros reconhecem a pessoa habitual.Outros dizem: ‘você está diferente’ ou ‘acelerado’.
CursoResposta proporcional a boas notícias ou descanso.Período delimitado, acompanhado por vários sintomas.
DepoisNão há custo sindrômico previsível.Pode haver dívidas, conflitos, exaustão ou depressão subsequente.

3. Episódio depressivo maior: onde o tipo II mais machuca

O episódio depressivo maior exige pelo menos duas semanas de sintomas presentes na maior parte do dia, quase todos os dias, representando mudança do funcionamento anterior. São necessários cinco ou mais sintomas; obrigatoriamente um deles deve ser humor deprimido ou perda de interesse/prazer. O quadro deve causar sofrimento ou prejuízo e não ser melhor explicado por substância ou condição médica. Luto e depressão podem coexistir; o contexto não elimina automaticamente o diagnóstico.

Frequência, simultaneidade e mudança basal

‘Quase todos os dias’ impede que sintomas ocasionais sejam somados artificialmente. Também é necessário demonstrar sobreposição temporal: três sintomas em janeiro e dois em março não constituem um episódio. Por fim, a comparação é idiográfica. Alguém naturalmente com pouco apetite ou sono longo só preenche o item se houver mudança clinicamente relevante durante o período.

Sofrimento e prejuízo podem estar escondidos

A pessoa pode manter trabalho e autocuidado graças a esforço extraordinário, apoio familiar ou flexibilidade ambiental. O prejuízo não deve ser medido apenas por demissão ou hospitalização: queda de eficiência, retraimento, abandono de papéis, sofrimento intenso e perda de qualidade de vida contam. Ao mesmo tempo, sofrimento causado exclusivamente pelas consequências de outro problema não substitui a síndrome depressiva.

Exclusões não são burocracia

Hipotireoidismo, anemia, apneia do sono, condições neurológicas, infecções, dor, medicamentos e substâncias podem produzir sintomas semelhantes ou coexistir com depressão. A avaliação médica é guiada por história e exame, não por uma bateria idêntica para todos. Transtornos psicóticos também exigem análise temporal: se psicose ocorre exclusivamente dentro de episódios de humor, a formulação difere daquela em que permanece por períodos substanciais fora deles.

3.1 Humor deprimido

Tristeza, vazio, desesperança ou irritabilidade persistentes. Em adolescentes, a irritabilidade pode ser mais proeminente.

3.2 Perda de interesse ou prazer

Atividades antes significativas deixam de mobilizar interesse ou produzir prazer. A pessoa pode continuar executando tarefas, mas de modo mecânico.

3.3 Alteração relevante de peso ou apetite

Pode ocorrer redução ou aumento persistente do apetite, com mudança de peso não intencional. A avaliação considera o padrão basal e condições clínicas.

3.4 Insônia ou hipersonia

Dificuldade para iniciar ou manter o sono, despertar precoce ou sono excessivo. Diferentemente da hipomania, dormir pouco na depressão costuma vir acompanhado de cansaço e sofrimento.

3.5 Agitação ou retardo psicomotor

A mudança é observável: inquietação, incapacidade de ficar parado, fala e movimentos lentificados ou longas pausas antes de responder.

3.6 Fadiga ou perda de energia

Atividades simples exigem esforço desproporcional. Não é preguiça; é uma alteração somática e motivacional do episódio.

3.7 Sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva

A autoavaliação torna-se globalmente negativa; responsabilidades são ampliadas além dos fatos. A culpa pode chegar a intensidade delirante em episódios graves.

3.8 Diminuição da concentração ou indecisão

Pensar, ler, planejar e decidir tornam-se difíceis. O sintoma pode parecer TDAH ou declínio cognitivo, mas acompanha o episódio.

3.9 Pensamentos de morte ou comportamento suicida

Inclui desejo de não acordar, pensamentos recorrentes de morte, ideação com ou sem plano, tentativa de suicídio ou preparação. Todo sinal exige avaliação direta de risco.

Segurança

Risco suicida não é um critério para ser conferido e esquecido. Ideação atual, plano, intenção, acesso a meios, agitação grave, intoxicação, psicose ou incapacidade de manter-se em segurança exigem avaliação imediata e mobilização da rede de urgência. No Brasil, em emergência, acione o SAMU (192), dirija-se a uma UPA/pronto-socorro ou contate o CVV (188) para apoio emocional.

Um exemplo longitudinal: como os episódios se organizam

Aos 19 anos, Elisa apresentou seis semanas de depressão com anedonia, hipersonia, aumento de apetite, fadiga, culpa e ideação passiva de morte. Recebeu o diagnóstico de depressão maior. Aos 23, após meses eutímica, passou cinco dias dormindo três horas sem cansaço, falando mais, contatando antigos conhecidos, assumindo dois projetos e comprando equipamentos que não poderia pagar. Sentia-se ‘finalmente curada’ e não procurou atendimento. A irmã percebeu a mudança, mas elogiou sua energia. Depois, Elisa retornou ao padrão basal e, semanas mais tarde, entrou em nova depressão.

A força do caso não está em uma compra ou em cinco noites ruins. Está na arquitetura: episódio depressivo maior documentado; período distinto de cinco dias; mudança simultânea de sono, energia, fala, sociabilidade, atividade e risco; observabilidade; retorno à linha de base; ausência de psicose, hospitalização e prejuízo marcante; e nenhuma história de mania. Se substâncias, medicações e causas médicas forem adequadamente excluídas, o conjunto sustenta bipolar II. Se a elevação tivesse durado dois dias, continuaria clinicamente importante, mas exigiria outra classificação formal.

4. O raciocínio diagnóstico que uma lista não mostra

Como organizo a hipótese clínica

Não começo pela pergunta ‘quantos sintomas você tem?’. Primeiro procuro delimitar um período: quando começou, o que mudou junto, quem percebeu, quais decisões foram tomadas e quando houve retorno à linha de base. Depois testo a coerência interna da hipótese. Sono, energia, fala, pensamento e atividade pertencem ao mesmo episódio? Há uma explicação farmacológica, médica ou relacionada a substâncias? O funcionamento mudou de modo reconhecível? Só então a contagem de sintomas ganha significado.

Essa ordem reduz dois erros opostos. O primeiro é perder bipolar II porque a hipomania foi agradável ou produtiva. O segundo é enxergar bipolaridade em qualquer oscilação, impulsividade ou insônia. Rigor não significa diagnosticar mais nem menos; significa exigir que a explicação organize melhor o conjunto dos dados do que suas alternativas.

Episodicidade: procurar o filme, não a fotografia

A pergunta mais útil não é ‘você é impulsivo?’, mas ‘houve um período em que sua energia, sono, velocidade mental, sociabilidade e decisões mudaram juntos em relação ao seu padrão?’. O diagnóstico depende de agrupamento temporal. Sintomas simultâneos, mudança basal, início e término reconhecíveis e relato de terceiros valem mais do que adjetivos soltos.

A linha de base é individual

Quatro horas de sono podem ser patológicas para quem sempre precisou de oito e normais em uma noite excepcional. Falar muito pode ser traço de personalidade; tornar-se subitamente impossível de interromper pode ser estado. A avaliação compara a pessoa consigo mesma, sem ignorar cultura, idade, profissão e contexto.

Informantes e rastros objetivos

A hipomania pode ser lembrada como bem-estar, e a memória retrospectiva muda conforme o estado atual. Com consentimento, familiares e parceiros podem ajudar a reconstruir sono, gastos, fala, conflitos e funcionamento. Extratos, mensagens, agenda, registros de sono e linha do tempo de tratamentos também podem aumentar a precisão.

Antidepressivos, substâncias e condições médicas

Elevação que começa durante antidepressivo ou outro tratamento pode contar como episódio hipomaníaco quando persiste em nível sindrômico além do efeito fisiológico esperado; poucos sinais de ativação — irritabilidade ou agitação isoladas — não bastam. Estimulantes, corticosteroides, drogas recreativas, alterações tireoidianas e outras condições médicas exigem investigação. Atribuir tudo ao transtorno bipolar é tão arriscado quanto ignorá-lo.

5. Os principais diagnósticos diferenciais

Comparação entre bipolar II, TPB e TDAH em seis dimensões
DimensãoBipolar IITPBTDAH
TempoEpisódios de dias a semanas, com retorno parcial ou completo à linha de base.Padrão mais contínuo; oscilações frequentemente reativas e de horas.Traços persistentes desde o neurodesenvolvimento, embora variem com demandas.
GatilhosPodem ocorrer com ou sem evento externo claro.Frequentemente interpessoais: rejeição, abandono, invalidação.Sobrecarga, tédio, novidade e exigência executiva.
SonoNecessidade reduzida com energia na hipomania.Sono pode piorar pelo estresse, sem padrão sindrômico obrigatório.Atraso de sono e rotina irregular não equivalem a necessidade reduzida.
Identidade e vínculosNão são critérios centrais; alteram-se sobretudo com episódios.Instabilidade de identidade e relações é central e transversal.Dificuldades relacionais são secundárias, não definidoras.
ImpulsividadeAumenta nitidamente durante elevação/mistos.Pode ser recorrente e ligada a dor relacional.Tende a ser basal e historicamente precoce.
CoexistênciaPode coexistir com ambos.Pode coexistir com bipolar II.Pode coexistir com bipolar II e TPB.

Nenhuma linha dessa tabela decide um caso. TPB e bipolar II não são rivais diagnósticos: podem coexistir e essa combinação costuma indicar maior complexidade e risco. TDAH também pode coexistir. O diferencial é longitudinal e baseado na organização do conjunto, não em um único sintoma.

Depressão unipolar

O erro mais comum é diagnosticar depressão maior sem investigar hipomania passada. Pistas que aumentam a suspeita — mas não confirmam bipolaridade — incluem início precoce, recorrência, história familiar de bipolaridade, depressão com características atípicas, sintomas mistos, episódios pós-parto e ativação por antidepressivos. Nenhuma pista substitui a demonstração de um episódio hipomaníaco.

Ciclotimia

Na ciclotimia há numerosos períodos com sintomas hipomaníacos e depressivos subclínicos ao longo de pelo menos dois anos em adultos, sem preencher plenamente os episódios exigidos para bipolar II durante o período definidor. Se existe episódio depressivo maior e episódio hipomaníaco completos, o raciocínio se desloca para bipolar II.

Ansiedade, trauma e uso de substâncias

Ansiedade pode produzir insônia, fala rápida e agitação; trauma pode causar reatividade, hipervigilância e comportamento de risco; substâncias podem alterar energia, sono e julgamento. A sequência temporal — antes, durante e depois de exposição, abstinência ou gatilho — é decisiva.

6. Especificadores que mudam a leitura clínica

O diagnóstico não termina em ‘bipolar II’. Especificadores descrevem o episódio e o curso: com ansiedade, características mistas, ciclagem rápida, padrão sazonal, início no periparto, características melancólicas ou atípicas, sintomas psicóticos na depressão, catatonia e gravidade/remissão. Eles refinam prognóstico, risco e decisão terapêutica.

Ciclagem rápida significa quatro ou mais episódios de humor em doze meses, separados por remissão ou mudança para o polo oposto. Não significa oscilar várias vezes no mesmo dia. Essa confusão é frequente e produz diagnósticos frágeis.

7. Instrumentos ajudam a perguntar — não fazem o diagnóstico

HCL-32, MDQ e BSDS são rastreadores. Meta-análises mostram utilidade para aumentar a detecção, mas sensibilidade e especificidade são imperfeitas e variam conforme população e ponto de corte. O HCL-32 parece particularmente sensível ao espectro bipolar e ao tipo II; isso vem ao custo de falsos positivos. Resultado positivo significa ‘investigue melhor’, não ‘diagnóstico confirmado’.

  • Use entrevista clínica estruturada ou semiestruturada quando possível.
  • Construa uma linha do tempo de humor, sono, energia, atividade, riscos e tratamentos.
  • Investigue história familiar, substâncias, medicamentos e causas médicas.
  • Pergunte por consequências positivas e negativas: hipomania pode ser lembrada apenas pelos ganhos.
  • Busque mudanças observáveis e convergência entre fontes, com autorização do paciente.

8. O que a ciência atual diz sobre tratamento

O tratamento é individualizado e geralmente combina farmacoterapia, psicoeducação, monitoramento do curso e intervenções psicossociais. A base específica para bipolar II ainda é menor do que para bipolar I; muitas recomendações extrapolam estudos mistos. Reconhecer essa limitação é rigor científico, não indecisão.

A atualização CANMAT/ISBD de 2023 mantém quetiapina como opção de primeira linha para depressão bipolar II aguda; lítio e lamotrigina figuram entre opções de segunda linha, com escolhas condicionadas a perfil clínico, preferência, segurança e histórico de resposta. Antidepressivos não devem ser tratados como solução automática: diretrizes restringem seu uso a situações selecionadas, evitam monoterapia em certos contextos e recomendam cautela diante de características mistas, ciclagem rápida ou ativação prévia. Prescrição e retirada pertencem ao médico; interrupção abrupta pode ser perigosa.

Para manutenção, lítio, quetiapina e lamotrigina têm posição de destaque nas recomendações CANMAT/ISBD para bipolar II. O plano deve incluir monitoramento de efeitos adversos, saúde metabólica e cardiovascular, tireoide/rim quando pertinente, sono, uso de substâncias, adesão e risco suicida. Gestação, lactação e potencial reprodutivo exigem decisão especializada e compartilhada.

Psicoterapia é adjuvante, não substituta universal da farmacoterapia. Meta-análise em rede de 39 ensaios encontrou menor recorrência com psicoterapias manualizadas somadas ao tratamento farmacológico. Psicoeducação, TCC, terapia focada na família e terapia interpessoal e do ritmo social ajudam a reconhecer pródromos, proteger sono e ritmos, melhorar adesão, resolver problemas e reduzir estressores.

9. Um roteiro de avaliação realmente cuidadosa

Uma avaliação de alta qualidade pode ser organizada em sete movimentos:

  • Definir a queixa atual e avaliar imediatamente segurança, psicose, agitação, intoxicação e capacidade de autocuidado.
  • Mapear todos os episódios depressivos, hipomaníacos, possíveis estados mistos e períodos de eutimia.
  • Comparar cada período com a linha de base: sono, energia, fala, pensamentos, atividade, riscos e funcionamento.
  • Determinar duração, simultaneidade dos sintomas, início, término, gatilhos e consequências.
  • Investigar mania passada; um único episódio muda a classificação para bipolar I.
  • Examinar diferenciais, comorbidades, história familiar, medicamentos, substâncias e condições médicas.
  • Formular o caso com a pessoa, explicitando evidências a favor, contra, incertezas e plano para esclarecer o curso.

Em psiquiatria, precisão não é fingir certeza. Às vezes o dado mais científico é registrar ‘transtorno bipolar em investigação’, acompanhar prospectivamente e evitar uma conclusão prematura. Um diagnóstico bem feito precisa ser revisável diante de novas evidências.

Conclusão: reconhecer o que se esconde atrás da melhora

O Transtorno Bipolar Tipo II vive um paradoxo: aquilo que define sua bipolaridade é justamente o que menos chega como queixa. A depressão é reconhecida como doença; a hipomania pode ser incorporada à narrativa de competência, criatividade ou ‘verdadeiro eu’. Em vez de perguntar apenas se houve euforia, considero mais produtivo reconstruir se existiu um período delimitado em que sono, energia, velocidade mental, confiança, atividade e risco mudaram em conjunto — e se essa mudança foi percebida por outras pessoas.

Diagnosticar bem não é procurar bipolaridade em toda oscilação, nem negar o transtorno porque a pessoa continuou funcionando. É reconhecer uma arquitetura temporal, confrontá-la com explicações concorrentes e dizer com honestidade o que ainda não pode ser concluído. Bipolar II não é fraqueza, personalidade difícil ou bipolar I incompleto. É um transtorno episódico, tratável e potencialmente grave. O cuidado se torna mais preciso quando a hipomania deixa de ser romantizada e a depressão deixa de ser interpretada fora da história longitudinal.

Nota clínica e de segurança

Segurança

Este artigo é educativo e não substitui avaliação psicológica ou psiquiátrica. Os critérios foram parafraseados a partir de sistemas diagnósticos reconhecidos; exemplos não representam todas as apresentações. Não inicie, suspenda ou altere medicação com base neste texto. Em risco de suicídio, psicose, agitação grave, incapacidade de autocuidado ou perigo imediato, procure atendimento de urgência.

Sobre o autor

Jandré Lopes é psicólogo (CRP 06/215909), com especializações em Psicopatologia e Terapia Cognitivo-Comportamental, formação em Terapia Comportamental Dialética (DBT) e CAMS. Atua com educação em saúde mental baseada em evidências, com ênfase em Transtorno de Personalidade Borderline e Transtorno Bipolar.

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Compreender o funcionamento dos episódios não substitui a avaliação individual. A psicologia baseada em evidências pode ajudar a reconhecer padrões, cuidar do sono e do ritmo, reduzir riscos e sustentar tratamento ao longo do tempo.

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