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Artigo | Transtornos da personalidade

TPB e os outros transtornos do cluster B: o que os aproxima e o que os diferencia?

Borderline, narcisista, histriônico e antissocial pertencem ao mesmo grupo no DSM-5-TR, mas apresentam diferenças importantes para a avaliação e o cuidado.

Jandré Lopes • Psicólogo • CRP 06/215909

Psicologia baseada em evidênciasLeitura aproximada: 7 minutos
Ilustração editorial abstrata em azul profundo, cinza e creme com brilho dourado suave, sem figuras humanas.

O transtorno de personalidade borderline (TPB) costuma aparecer em conversas sobre relacionamentos intensos, impulsividade e sofrimento emocional. Nessas mesmas conversas, surgem outros nomes: personalidade narcisista, histriônica e antissocial. Os quatro diagnósticos são agrupados no chamado cluster B do DSM-5-TR. Mas pertencer ao mesmo grupo não significa ter a mesma causa, a mesma experiência interna ou o mesmo tratamento.

Entender as diferenças ajuda a evitar dois erros comuns: chamar qualquer comportamento difícil de “borderline” e usar diagnósticos para definir o caráter de alguém. A avaliação clínica precisa considerar um padrão persistente, seu contexto, o sofrimento e os prejuízos envolvidos — nunca uma cena isolada, uma discussão ou um vídeo nas redes sociais.

O que é o cluster B?

O DSM-5-TR, manual da Associação Americana de Psiquiatria, organiza alguns transtornos da personalidade em grupos. O cluster B reúne os transtornos borderline, narcisista, histriônico e antissocial. É uma forma de organizar diagnósticos que podem envolver dificuldades na regulação das emoções, nos relacionamentos, na impulsividade ou na maneira de perceber a si e aos outros. Essas características aparecem de maneiras muito diferentes em cada condição.[1]

Um traço, por si só, não constitui um transtorno. Buscar reconhecimento, temer uma separação, agir por impulso ou se mostrar confiante são experiências humanas. Uma hipótese diagnóstica exige observar se há um padrão duradouro e relativamente inflexível, presente em diferentes situações, com prejuízo importante ou sofrimento, levando em conta a história e a cultura da pessoa.[1,3]

Quatro diagnósticos, quatro focos clínicos

1. Transtorno de personalidade borderline (TPB)

No TPB, podem aparecer intensa sensibilidade à rejeição ou ao abandono, emoções difíceis de regular, relações instáveis, mudanças na imagem de si, impulsividade e sentimentos persistentes de vazio. Algumas pessoas apresentam autolesão ou comportamento suicida; outras não. Nenhum desses sinais, isoladamente, estabelece o diagnóstico.[1,4]

Imagine uma pessoa que interpreta um silêncio inesperado como sinal de afastamento. A angústia cresce rapidamente, ela envia muitas mensagens e, mais tarde, sente vergonha da reação. Esse exemplo ajuda a entender uma possibilidade clínica, mas também pode ocorrer por outros motivos. É a avaliação do padrão ao longo do tempo que importa.

O TPB não é sinônimo de manipulação, nem torna alguém incapaz de construir relações estáveis. Existe tratamento, e os sintomas podem melhorar de forma relevante.

2. Transtorno de personalidade narcisista

O núcleo clínico envolve um padrão persistente de grandiosidade, necessidade de admiração e dificuldades de empatia, que pode se manifestar de modos diferentes. A pessoa pode se mostrar especialmente sensível a críticas ou a situações em que sente que seu valor não foi reconhecido. Aparência de autoconfiança, arrogância ocasional ou egoísmo em uma situação específica não bastam para diagnosticar o transtorno.[1]

No cotidiano, uma frustração profissional, por exemplo, pode ser vivida como uma afronta intolerável e desencadear tentativas de recuperar prestígio. Isso também não autoriza concluir que toda reação defensiva seja “narcisismo patológico”.

3. Transtorno de personalidade histriônica

Nesse quadro, destacam-se um padrão persistente de busca de atenção e expressão emocional que pode ser percebida como intensa ou rapidamente variável, com forte influência das reações alheias sobre a forma de se apresentar e se relacionar. Ser comunicativo, gostar de se arrumar, dramatizar uma ocasião ou publicar fotos não é critério diagnóstico.[1]

Uma pessoa pode sentir grande desconforto quando percebe que deixou de ser notada e tentar recuperar a atenção durante interações sociais. O significado clínico desse comportamento depende da frequência, do contexto e dos prejuízos associados — e não de um julgamento moral sobre sua personalidade.

4. Transtorno de personalidade antissocial

O foco é um padrão persistente de desrespeito ou violação dos direitos de outras pessoas, que pode envolver engano, irresponsabilidade, agressividade, impulsividade e pouca consideração pelas consequências de seus atos. No DSM-5-TR, esse diagnóstico exige idade mínima de 18 anos e evidências de transtorno da conduta antes dos 15 anos.[1,5]

“Antissocial”, nesse contexto, não significa ser tímido, introvertido ou evitar festas. Também não é possível diagnosticar alguém apenas porque cometeu um ato ilegal: a avaliação exige história de desenvolvimento, padrão de funcionamento e análise de outras possíveis explicações.

Onde as apresentações podem se confundir?

Uma mesma atitude visível pode ter funções diferentes. Alguém pode reagir mal a uma crítica por medo intenso de abandono, por sentir seu valor ameaçado, por buscar reconhecimento ou por outros fatores sem relação com um transtorno da personalidade. O comportamento observado não revela sozinho a motivação interna.

Além disso, características de diferentes transtornos podem coexistir. Depressão, transtorno bipolar, uso de substâncias e experiências traumáticas também podem alterar emoções e comportamentos. Por isso, comparar uma pessoa a uma lista de “sinais” na internet produz muitos falsos rótulos.[1,2]

Na avaliação, vale investigar: desde quando esse padrão ocorre? Ele aparece em diferentes relações e ambientes? Há sofrimento ou prejuízo? O que acontece antes e depois das crises? Existem episódios de humor, uso de substâncias ou outras condições que ajudam a explicar o quadro? A resposta exige escuta e acompanhamento clínico.

Cluster B no DSM e personalidade na CID-11: são a mesma coisa?

Não. Cluster B é uma categoria de agrupamento do DSM-5-TR. A CID-11, da Organização Mundial da Saúde, adota uma abordagem dimensional para os transtornos da personalidade: considera a gravidade dos prejuízos e pode acrescentar domínios de traços para descrever o perfil clínico. Ela também prevê um qualificador de padrão borderline quando pertinente. Por isso, não se deve apresentar “cluster B” como se fosse uma categoria diagnóstica da CID-11.[1,3]

As duas formas de classificação procuram ajudar profissionais a compreender e comunicar casos clínicos. Nenhuma substitui a formulação individual: quais dificuldades a pessoa vive, quais recursos já possui e quais objetivos fazem sentido para o cuidado.

O tratamento é igual para os quatro transtornos?

Não existe um único protocolo para todo o cluster B. O plano depende das dificuldades prioritárias, dos riscos, das condições associadas e dos objetivos da pessoa.

Para o TPB, psicoterapias estruturadas têm apoio científico. A terapia comportamental dialética (DBT) é uma das abordagens estudadas, especialmente quando há desregulação emocional, comportamentos de risco e necessidade de desenvolver habilidades. Ensaios clínicos investigaram a DBT em pessoas com TPB e comportamentos suicidas, mas seus resultados não autorizam prometer o mesmo benefício para todas as pessoas.[2,6] A diretriz da Associação Americana de Psiquiatria de 2024 recomenda psicoterapia estruturada que trabalhe as características centrais do TPB; ela não aponta uma terapia única como padrão obrigatório. Medicamentos podem ser considerados para alvos específicos ou condições associadas, como complemento, mas não há evidência de que um remédio trate os sintomas centrais do TPB por si só.[2]

Nos outros transtornos, a psicoterapia também pode ser indicada, com metas ajustadas ao funcionamento de cada pessoa. Um ensaio multicêntrico de terapia do esquema incluiu pessoas com transtornos narcisista e histriônico, entre outros diagnósticos, e encontrou melhores resultados em algumas medidas do que o tratamento usual; isso não equivale a provar uma terapia única como primeira escolha para cada um desses transtornos separadamente.[7] Para o transtorno antissocial, diretrizes recomendam avaliar intervenções psicológicas e condições associadas, reconhecendo as limitações das evidências disponíveis.[8] A quantidade e a qualidade das pesquisas variam entre os diagnósticos; seria incorreto prometer que uma mesma técnica tem eficácia estabelecida para todos. Em qualquer caso, o tratamento precisa reconhecer responsabilidades pelos próprios atos sem reduzir a pessoa a um rótulo.

O que familiares e parceiros podem fazer?

É possível acolher o sofrimento e manter limites claros ao mesmo tempo. Escutar sem ridicularizar, descrever comportamentos concretos em vez de atribuir um diagnóstico e combinar formas mais seguras de lidar com conflitos costumam ser passos mais úteis do que discutir “qual transtorno” a outra pessoa teria.

Se houver autolesão, ameaça de suicídio ou risco imediato, a prioridade é uma avaliação de segurança e o acesso a atendimento de urgência. Familiares e parceiros também podem buscar orientação profissional para cuidar dos próprios limites e compreender como oferecer apoio.

Em resumo

TPB, transtorno narcisista, histriônico e antissocial integram o cluster B no DSM-5-TR, mas são diagnósticos distintos. Há sobreposição possível de traços e comportamentos; o que diferencia um caso é o padrão ao longo do tempo, o contexto e a avaliação clínica. Diagnóstico serve para orientar cuidado, não para desqualificar alguém.

Se você se reconhece em parte destas descrições, ou convive com conflitos que parecem se repetir, uma avaliação profissional pode ajudar a compreender o que está acontecendo e a construir um plano de tratamento adequado.

Referências

  1. American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5th ed., text revision (DSM-5-TR). Washington, DC: APA Publishing; 2022. DOI: 10.1176/appi.books.9780890425787. https://doi.org/10.1176/appi.books.9780890425787
  2. American Psychiatric Association. The American Psychiatric Association Practice Guideline for the Treatment of Patients With Borderline Personality Disorder. American Journal of Psychiatry. 2024. DOI: 10.1176/appi.ajp.24181010. https://doi.org/10.1176/appi.ajp.24181010
  3. World Health Organization. Clinical descriptions and diagnostic requirements for ICD-11 mental, behavioural and neurodevelopmental disorders. Geneva: WHO; 2024. Publicação oficial. https://www.who.int/publications/i/item/9789240077263
  4. National Institute of Mental Health. Borderline Personality Disorder. Informações sobre diagnóstico e tratamento. https://www.nimh.nih.gov/health/topics/borderline-personality-disorder
  5. American Psychiatric Association. Antisocial Personality Disorder: Often Overlooked and Untreated. 2022. Texto oficial. https://www.psychiatry.org/news-room/apa-blogs/antisocial-personality-disorder-often-overlooked
  6. Linehan MM, Comtois KA, Murray AM, et al. Two-year randomized controlled trial and follow-up of dialectical behavior therapy vs therapy by experts for suicidal behaviors and borderline personality disorder. Archives of General Psychiatry. 2006;63(7):757–766. DOI: 10.1001/archpsyc.63.7.757. https://doi.org/10.1001/archpsyc.63.7.757
  7. Bamelis LLM, Evers SMAA, Spinhoven P, Arntz A. Results of a multicenter randomized controlled trial of the clinical effectiveness of schema therapy for personality disorders. American Journal of Psychiatry. 2014;171(3):305–322. DOI: 10.1176/appi.ajp.2013.12040518. https://doi.org/10.1176/appi.ajp.2013.12040518
  8. National Institute for Health and Care Excellence. Antisocial personality disorder: prevention and management. Clinical guideline CG77. 2009. Recomendações. https://www.nice.org.uk/guidance/cg77

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