Artigo | Transtorno Bipolar
O que acontece no cérebro no transtorno bipolar?
Sono, energia, circuitos cerebrais e o que a ciência ainda não sabe
Jandré Lopes • Psicólogo • CRP 06/215909

Depois de várias semanas difíceis, Marina começa a dormir cerca de quatro horas por noite. Ao acordar, diz que está descansada. Abre três projetos, fala mais rapidamente, aceita compromissos demais e faz uma compra fora do seu padrão. Um amigo percebe a mudança; Marina a interpreta como uma fase de produtividade. Mais tarde, a energia cai e ela procura ajuda por causa de uma depressão.
Marina é uma personagem fictícia. Sua história não oferece um diagnóstico: há várias explicações possíveis para mudanças de sono, energia e comportamento. O exemplo mostra por que uma avaliação precisa observar a mudança em relação ao funcionamento habitual, a duração, o contexto e as consequências, inclusive em períodos que a pessoa não considera problemáticos.[2]
1. O que significa “funcionamento neurobiológico”?
Significa investigar como sistemas do cérebro e do corpo participam da regulação de sono, energia, emoções, atenção, motivação e comportamento. O transtorno bipolar envolve episódios de depressão e de mania ou hipomania, com diferentes trajetórias entre pessoas. Durante a mania pode haver humor elevado ou irritável, aumento de atividade e energia, redução da necessidade de sono e decisões arriscadas; episódios depressivos podem envolver perda de interesse, alterações de sono e energia e dificuldades de concentração.[2]
No transtorno bipolar tipo I há pelo menos um episódio de mania; no tipo II, episódios de hipomania e depressão maior, sem episódio de mania. Tipo II não significa sofrimento leve: a depressão pode ser importante. Sintomas mistos também podem ocorrer, com sinais depressivos e de ativação no mesmo episódio. Entre episódios, algumas pessoas retornam ao funcionamento habitual, enquanto outras ainda apresentam sintomas.[2]
Uma pesquisa cerebral pode ajudar a estudar mecanismos. Ela não substitui perguntas como: “Por quantos dias durou?”, “Quanto você dormiu?”, “Sentiu sono e cansaço ou parecia não precisar dormir?”, “Alguém notou uma mudança?” e “Que impacto isso teve?”.
2. O sono é apenas uma consequência das fases de humor?
Sono e ritmos circadianos merecem atenção especial. O sistema circadiano ajuda a coordenar, aproximadamente ao longo de 24 horas, períodos de vigília, sono e outros processos corporais. Uma revisão multidisciplinar da Sociedade Internacional de Transtornos Bipolares descreve relações entre alterações desses ritmos e o transtorno, mas ressalta que os mecanismos e a direção das relações ainda precisam de investigação.[3]
Há uma distinção clínica útil: dormir pouco e sentir-se exausto não é a mesma coisa que dormir pouco e sentir pouca necessidade de sono, com aumento incomum de energia e atividade. A segunda experiência pode compor um episódio de hipomania ou mania; nenhum desses sinais, isoladamente, estabelece o diagnóstico.[2]
Imagine duas pessoas que dormiram quatro horas. Uma trabalhou até tarde, quer voltar para a cama e se sente lenta. A outra passou dias dormindo pouco, acorda cheia de energia, faz planos em sequência e seus familiares notam que ela está diferente. O número de horas é igual; o conjunto de sinais e a evolução são diferentes.
Viagens com mudança de fuso, turnos de trabalho, privação de sono e rotinas instáveis podem ser relevantes para algumas pessoas. Também é possível que o episódio de humor perturbe o sono. A relação pode funcionar em mais de uma direção. Uma noite mal dormida não significa que alguém desenvolverá mania, e uma rotina regular não garante prevenção.[2,3]
3. Existe um “circuito da mania”?
Não foi encontrado um botão cerebral que ligue e desligue a mania. Estudos de ressonância funcional observam redes que participam do processamento de emoções, recompensas e decisões. Uma revisão sistemática com metanálise publicada em JAMA Psychiatry reuniu dados de 999 participantes com transtorno bipolar e 1.027 controles. Encontrou diferenças médias de atividade em regiões como amígdala, hipocampo e partes do córtex pré-frontal em tarefas de emoção, recompensa e memória de trabalho; os resultados dependiam da tarefa examinada.[4]
Essas regiões trabalham em redes. A amígdala não é simplesmente um “centro do medo”, e o córtex pré-frontal não é um “freio” que desaparece durante um episódio. Uma tarefa experimental mede uma resposta em condições específicas; não mostra o conteúdo dos pensamentos de alguém nem permite concluir que seu cérebro está sempre no mesmo estado.
Uma hipótese pesquisada é que mudanças na avaliação de recompensas, metas e consequências participem da maior disposição para começar projetos ou assumir riscos em algumas fases de ativação. Isto é uma interpretação possível dos estudos, não uma explicação confirmada para a compra de Marina. A decisão dela também envolve hábitos, dinheiro disponível, pressões e o contexto do momento.[1,4]
4. Dopamina alta na mania e baixa na depressão: é assim tão simples?
Não. Dopamina participa de motivação, aprendizagem e processamento de recompensas, mas a neurobiologia do transtorno bipolar envolve muito mais do que uma medida de dopamina. Pesquisadores também investigam outros sistemas de sinalização, atividade celular, inflamação e metabolismo energético. Uma revisão de 2026 descreve esse campo como multifatorial, ainda sem um mecanismo único que explique todas as fases e pessoas.[1]
É tentador atribuir qualquer dia produtivo a “dopamina alta” e qualquer dia difícil a “dopamina baixa”. Essa linguagem não mede o cérebro de quem a usa. Tampouco explica por que alguém pode estar agitado e profundamente deprimido ao mesmo tempo, nem por que medicamentos com mecanismos diferentes podem ter utilidade em fases distintas.[1,2]
O efeito clínico de um medicamento não prova que a causa do transtorno seja a “falta” da substância sobre a qual ele age. Tratar uma condição e descobrir sua causa são perguntas científicas diferentes.
5. Há influência genética? Qual é o tamanho dessa influência?
Sim, muitos fatores genéticos contribuem para a vulnerabilidade, mas não há um “gene do bipolar”. Em 2025, um estudo genômico com 158.036 casos e cerca de 2,8 milhões de participantes de comparação identificou 298 regiões genéticas associadas ao transtorno em uma metanálise que reuniu diferentes ancestralidades. As associações apontam caminhos para pesquisa biológica, não um teste clínico capaz de dizer se uma pessoa tem ou terá um episódio.[5]
Ter um familiar com transtorno bipolar pode aumentar o risco, mas não define o futuro. Pessoas sem histórico familiar conhecido também podem apresentar o transtorno. Estimativas de herdabilidade se referem à variação de risco em populações estudadas, sob determinadas condições; não representam uma porcentagem do cérebro de alguém nem a probabilidade individual de adoecer.[2,5]
O estudo genômico reuniu grandes bases de dados e diversas formas de identificar casos. Sua dimensão é uma força, mas os resultados não são igualmente precisos para todas as ancestralidades ou situações clínicas. Genes, experiências e condições de vida interagem ao longo do tempo; não existe destino escrito em um resultado genético.[5]
6. Uma ressonância pode mostrar se alguém tem bipolaridade?
Não para o diagnóstico clínico atual. Ressonâncias estruturais e funcionais ajudam pesquisadores a comparar grupos, mas existe grande sobreposição entre pessoas com e sem o transtorno. Uso de medicamentos, fase do humor, sono, outras condições e os procedimentos do estudo podem influenciar os resultados.[1,4]
Veja a diferença entre perguntas que parecem semelhantes:
| Pergunta | O que é possível afirmar hoje? |
|---|---|
| “Há diferenças médias entre grupos em certas tarefas?” | Sim, alguns estudos encontram diferenças, com limites e heterogeneidade. |
| “Essa diferença aparece em toda pessoa com transtorno bipolar?” | Não foi demonstrado. |
| “Uma imagem diz se esta pessoa está em hipomania?” | Não é um exame diagnóstico de rotina. |
| “Se a ressonância é normal, posso descartar o transtorno?” | Não. A avaliação depende da história clínica. |
Em algumas situações, um profissional pode pedir exames para investigar outras causas de sintomas ou para acompanhar a segurança de um tratamento. Isso é diferente de afirmar que esses exames detectam o transtorno bipolar.[2]
7. Estresse, substâncias e medicamentos podem provocar episódios?
Eventos estressantes, mudanças de rotina e perda de sono podem anteceder episódios em algumas pessoas; isso não significa que exista uma causa única ou que a pessoa tenha “provocado” o próprio transtorno. Substâncias, medicamentos e condições clínicas também podem produzir ou agravar sintomas parecidos e precisam ser considerados na avaliação.[2,3]
Por exemplo, se alguém fica agitado, dorme pouco e fala aceleradamente após iniciar uma substância estimulante, é necessário reconstruir a sequência temporal, a dose, os demais sintomas e a evolução. O mesmo cuidado vale para sintomas que aparecem durante tratamento de uma depressão. Não se deve concluir automaticamente “é bipolar” nem interromper prescrições sem conversar com o profissional responsável.[2]
A história longitudinal ajuda a distinguir um episódio de uma reação breve a um acontecimento, embora uma pessoa possa ter ambos: vulnerabilidade a episódios e reações compreensíveis às experiências do dia a dia.
8. Por que a depressão bipolar pode passar despercebida como bipolar?
Muitas pessoas procuram tratamento no período de depressão, quando o sofrimento é evidente. Uma fase anterior de hipomania pode ter parecido um tempo em que “tudo estava funcionando”, especialmente se trouxe mais disposição e não levou a uma crise ostensiva. Perguntas sobre redução da necessidade de sono, aumento incomum de atividade, fala, confiança e decisões, inclusive confirmadas por alguém próximo quando apropriado, podem mudar a compreensão da trajetória.[2]
Essa investigação é importante porque depressão bipolar e depressão sem história de mania ou hipomania não têm exatamente o mesmo planejamento terapêutico. Diretrizes distinguem tratamento de mania, depressão e prevenção de novas fases; o tipo I e o tipo II também exigem atenção às diferenças.[6]
O diagnóstico não nasce de um sinal isolado, de um questionário na internet ou da impressão de “ter muita energia”. Exige compreender duração, intensidade, prejuízo e alternativas clínicas.
9. O que esse conhecimento muda no tratamento?
Muda a atenção ao tipo de episódio e ao padrão pessoal de recorrência. Diretrizes CANMAT/ISBD apresentam opções farmacológicas diferentes para mania aguda, depressão bipolar e manutenção. Entre os tratamentos estão, conforme a fase e a indicação médica, lítio e outros estabilizadores do humor e antipsicóticos atípicos. Escolha, doses, acompanhamento de efeitos e exames cabem à equipe médica, considerando benefícios e riscos para cada pessoa.[6]
Psicoterapia pode ajudar a compreender a própria trajetória, identificar sinais precoces, cuidar da regularidade de sono e atividades, lidar com estresse e melhorar a comunicação com familiares e equipe. Terapias voltadas aos ritmos sociais fazem parte das abordagens estudadas como complemento ao tratamento; não significam que “basta dormir em horário fixo” para tratar o transtorno.[2,7]
No caso fictício de Marina, um trabalho útil seria construir, com a equipe, uma linha do tempo: quando o sono mudou, o que familiares observaram, quais decisões ocorreram, como veio a depressão e quais intervenções ajudaram. Isso orienta perguntas e planejamento; não substitui a avaliação individual nem autoriza ajustar remédios por conta própria.
10. Como observar sinais sem transformar a vida em vigilância?
Um registro simples, combinado com os profissionais, pode anotar horários aproximados de sono, energia, humor, atividade e acontecimentos relevantes. O objetivo é perceber mudanças persistentes em relação ao próprio padrão. Um aplicativo ou planilha registra observações, não emite diagnóstico confiável por si só.[2]
| Observação | Pergunta que pode ajudar na consulta |
|---|---|
| Menos sono por vários dias | Senti cansaço ou parecia precisar de menos sono? |
| Mais energia e planos | Isso está muito diferente do meu habitual? Alguém percebeu? |
| Irritação ou euforia | Há outras mudanças de comportamento, gastos ou compromissos? |
| Desânimo e lentidão | Quanto dura, o que mudou no funcionamento e há riscos à segurança? |
As perguntas organizam uma conversa, não compõem escala validada. Se surgirem redução acentuada da necessidade de sono com aumento importante de energia, comportamentos de alto risco, sintomas psicóticos ou perigo de se ferir, procure avaliação de saúde com urgência.[2]
11. Isso diferencia transtorno bipolar de TPB?
O transtorno bipolar envolve episódios de humor e energia cuja duração e trajetória são fundamentais. No transtorno de personalidade borderline (TPB), podem ocorrer dificuldades persistentes ligadas à regulação emocional e aos vínculos, com variações intensas em resposta a experiências interpessoais. Essa comparação não é uma regra de diagnóstico baseada apenas em “dias versus horas”: sintomas podem se sobrepor, os quadros podem coexistir e cada história precisa ser examinada.[2,8]
Uma pessoa pode discutir com alguém e sentir raiva intensa sem estar em mania. Outra pode estar em um episódio depressivo bipolar e reagir a uma rejeição real. Perguntar sobre sono, energia, atividade, duração, contexto, funcionamento anterior e episódios passados é mais útil do que escolher um rótulo a partir de uma única cena.
Perguntas frequentes
Transtorno bipolar é uma “doença química”?
É uma condição de saúde mental com componentes biológicos importantes, mas a expressão “desequilíbrio químico” é vaga e simplifica indevidamente os achados. Não existe um exame que meça uma substância e confirme o diagnóstico.[1,2]
Dormir pouco é sempre sinal de mania?
Não. Insônia pode ocorrer por muitas razões. Na avaliação, interessa saber se há redução da necessidade de sono, mudança sustentada de energia e comportamento e outros sinais de episódio.[2,3]
O cérebro se altera de modo permanente a cada episódio?
Não é possível afirmar isso para toda pessoa. Estudos cerebrais diferem entre si, e achados médios não predizem uma trajetória individual. O cuidado precoce e contínuo é recomendado para reduzir sofrimento e recorrências, sem recorrer a uma narrativa de dano inevitável.[1,2,6]
Se existe genética, a psicoterapia ainda ajuda?
Sim. Predisposição genética não elimina aprendizagem, apoio, hábitos e escolhas terapêuticas. A psicoterapia pode integrar o cuidado, frequentemente em conjunto com tratamento medicamentoso quando indicado.[2,5,7]
Conclusão
O funcionamento neurobiológico no transtorno bipolar envolve sistemas que regulam sono, energia, emoção e motivação, sobre uma vulnerabilidade distribuída em muitos fatores genéticos e ambientais. A pesquisa avançou, mas não encontrou uma região, um gene ou uma substância que explique sozinha cada episódio.
A informação mais útil para a pessoa e sua equipe costuma vir da trajetória: o que mudou em relação ao habitual, por quanto tempo, com que impacto, e como sono, atividade e humor evoluíram juntos. Reconhecer o padrão pode abrir caminho para cuidado adequado sem reduzir alguém ao seu diagnóstico.[1,2,6]
Referências
- Soliman MA, Khafif T, Sylvia L, Nierenberg AA. Bipolar disorder: an update on neurobiology and treatment. American Journal of Psychiatry. 2026;183(3):159–168. PubMed. https://doi.org/10.1176/appi.ajp.20260051
- National Institute of Mental Health. Bipolar disorder. Publicação oficial, revisão 2025. Página oficial. Consultada em 17/10/2026. https://www.nimh.nih.gov/health/publications/bipolar-disorder
- McCarthy MJ, Gottlieb JF, Gonzalez R, et al. Neurobiological and behavioral mechanisms of circadian rhythm disruption in bipolar disorder: a critical multi-disciplinary literature review and agenda for future research from the ISBD task force on chronobiology. Bipolar Disorders. 2022;24(3):232–263. DOI: 10.1111/bdi.13165. https://doi.org/10.1111/bdi.13165
- Mesbah R, Koenders MA, van der Wee NJA, et al. Association between the fronto-limbic network and cognitive and emotional functioning in individuals with bipolar disorder: a systematic review and meta-analysis. JAMA Psychiatry. 2023;80(5):432–440. DOI: 10.1001/jamapsychiatry.2023.0131. https://doi.org/10.1001/jamapsychiatry.2023.0131
- O’Connell KS, Koromina M, van der Veen T, et al. Genomics yields biological and phenotypic insights into bipolar disorder. Nature. 2025;639:968–975. DOI: 10.1038/s41586-024-08468-9. https://doi.org/10.1038/s41586-024-08468-9
- Keramatian K, Chithra NK, Yatham LN. The CANMAT and ISBD guidelines for the treatment of bipolar disorder: summary and a 2023 update of evidence. Focus. 2023;21(4):344–353. PubMed. https://doi.org/10.1176/appi.focus.20230009
- Frank E, Kupfer DJ, Thase ME, et al. Two-year outcomes for interpersonal and social rhythm therapy in individuals with bipolar I disorder. Archives of General Psychiatry. 2005;62(9):996–1004. DOI: 10.1001/archpsyc.62.9.996. https://doi.org/10.1001/archpsyc.62.9.996
- National Institute of Mental Health. Borderline personality disorder. Página oficial. Consultada em 17/10/2026. https://www.nimh.nih.gov/health/publications/borderline-personality-disorder
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