Artigo | Transtorno Bipolar
Impulsividade no transtorno bipolar
Por que agir antes de pensar não é apenas falta de controle
Jandré Lopes • Psicólogo • CRP 06/215909
Artigo de divulgação científica baseado em evidências.

Comprar algo incompatível com a própria renda, iniciar vários projetos, dirigir de maneira perigosa, envolver-se sexualmente sem avaliar os riscos ou tomar uma decisão irreversível durante uma emoção intensa são comportamentos que podem ocorrer no transtorno bipolar. Mas reduzir todos eles à palavra “impulsividade” esconde uma realidade mais complexa.
Impulsividade não é sinônimo de irresponsabilidade, fraqueza moral ou ausência de caráter. Também não é uma característica exclusiva da bipolaridade. Trata-se de um conjunto de tendências relacionadas a agir com pouca reflexão, apresentar dificuldade para inibir uma resposta, priorizar recompensas imediatas ou tomar decisões precipitadas quando as emoções estão intensas.
No transtorno bipolar, essas tendências podem aumentar durante episódios de mania ou hipomania, aparecer em estados com características mistas e, em parte das pessoas, permanecer em algum grau mesmo durante a eutimia — período em que não há um episódio agudo de mania, hipomania ou depressão.
Compreender essas diferenças é essencial. Nem toda atitude impulsiva indica um episódio bipolar, e nem toda pessoa com transtorno bipolar apresenta o mesmo padrão de impulsividade.
A impulsividade é um sintoma obrigatório do transtorno bipolar?
Não. A palavra “impulsividade” não aparece isoladamente como critério obrigatório para diagnosticar transtorno bipolar.
No DSM-5-TR, um dos possíveis sintomas da mania e da hipomania é o envolvimento excessivo em atividades com elevado potencial para consequências negativas. Entre os exemplos estão compras descontroladas, indiscrições sexuais e investimentos financeiros imprudentes.
Esse é apenas um dos sete grupos de sintomas avaliados. Para caracterizar mania ou hipomania, é necessário que exista um período distinto de alteração do humor e aumento anormal de energia ou atividade, acompanhado por um conjunto de sintomas, mudança em relação ao funcionamento habitual, duração mínima e impacto compatíveis com os critérios diagnósticos.
Portanto, uma compra impulsiva isolada, uma discussão, uma relação sexual sem planejamento ou uma decisão precipitada não comprovam bipolaridade. O diagnóstico exige uma avaliação clínica longitudinal.
Impulsividade não é uma coisa só
A ciência não trata a impulsividade como uma capacidade única. Existem diferentes modelos para estudá-la, e cada um organiza o fenômeno de maneira própria.
A Escala de Impulsividade de Barratt, conhecida como BIS-11, descreve três dimensões amplas: impulsividade atencional, motora e por falta de planejamento. Já o modelo UPPS-P descreve cinco caminhos: urgência negativa, urgência positiva, falta de premeditação, falta de perseverança e busca de sensações.
Estudos neuropsicológicos também avaliam processos como inibição de respostas e desconto temporal de recompensas. Essas classificações se complementam parcialmente, mas não são subtipos oficiais do transtorno bipolar e não devem ser usadas isoladamente para estabelecer diagnóstico.
Impulsividade, desinibição, risco, compulsividade e agressividade não são sinônimos
Esses conceitos podem aparecer juntos, mas descrevem fenômenos diferentes:
- impulsividade envolve agir com pouca reflexão, dificuldade de esperar ou falha em inibir uma resposta;
- desinibição é uma redução mais ampla dos freios comportamentais e sociais;
- comportamento de risco envolve escolher uma ação cujo resultado é incerto e potencialmente prejudicial — uma escolha arriscada pode ser impulsiva, mas também pode ser deliberada;
- compulsividade envolve repetir comportamentos apesar das consequências, frequentemente com sensação de obrigação, rigidez ou busca de alívio;
- agressividade é um comportamento dirigido a causar dano e pode ser impulsivo ou planejado.
Ter transtorno bipolar não torna alguém automaticamente agressivo. Confundir bipolaridade com violência reforça estigma e ignora a influência de fatores como intoxicação, psicose, comorbidades, contexto e histórico individual.
O que acontece no cérebro?
A impulsividade no transtorno bipolar não pode ser explicada por uma única área cerebral nem por um neurotransmissor isolado. O modelo científico atual envolve a interação entre circuitos de recompensa, emoção, atenção, aprendizagem, planejamento e controle inibitório.
Circuitos de controle e recompensa
Regiões do córtex pré-frontal participam da comparação de alternativas, do planejamento, da representação de consequências futuras e da inibição de respostas. O córtex orbitofrontal e o córtex pré-frontal ventromedial ajudam a atribuir valor às escolhas; regiões pré-frontais laterais participam do controle cognitivo; e o córtex cingulado anterior contribui para monitorar conflitos, erros e esforço.
O estriado ventral, que inclui o núcleo accumbens, participa da motivação, da antecipação de recompensas e da aprendizagem a partir de resultados. A amígdala e outras estruturas do sistema límbico contribuem para detectar relevância emocional e ameaça.
Estudos de neuroimagem no transtorno bipolar descrevem alterações médias na atividade e na comunicação entre redes pré-frontais, límbicas e frontoestriatais. Pesquisas sobre recompensa encontraram, em determinados grupos e condições experimentais, maior reatividade de circuitos frontoestriatais. Isso pode contribuir para metas excessivamente valorizadas, aproximação intensa de recompensas e menor influência de consequências negativas durante a elevação do humor.
Esses resultados não significam que uma região esteja simplesmente “ligada” ou “desligada”. Os achados variam conforme fase do transtorno, tarefa utilizada, idade, medicação, comorbidades e método do estudo. São diferenças observadas entre grupos e não permitem explicar ou prever, sozinhas, o comportamento de uma pessoa.
Dopamina: importante, mas não é apenas “dopamina alta”
A dopamina participa da motivação, da aprendizagem por recompensa, da atribuição de relevância aos estímulos e da disposição para agir. Por isso, alterações dopaminérgicas são investigadas na mania, na depressão e nos comportamentos impulsivos.
Modelos científicos propõem aumento ou sensibilização da transmissão dopaminérgica em aspectos da mania e possíveis adaptações compensatórias relacionadas à mudança de fase. Entretanto, a evidência não sustenta que todas as pessoas em mania tenham simplesmente “dopamina alta” nem que a depressão bipolar seja apenas “falta de dopamina”. Resultados de neuroimagem molecular e de estudos farmacológicos são complexos e, em alguns pontos, inconsistentes.
A explicação mais responsável é que pode existir uma regulação alterada do sistema dopaminérgico dentro de circuitos específicos e em interação com outros sistemas, e não uma quantidade única de dopamina que defina o transtorno.
Glutamato e GABA: equilíbrio entre excitação e inibição
O glutamato é o principal neurotransmissor excitatório do sistema nervoso central, enquanto o GABA exerce importante função inibitória. O equilíbrio entre esses sistemas participa da plasticidade, da aprendizagem, da regulação de redes e do controle comportamental.
Estudos de espectroscopia por ressonância magnética encontraram alterações de metabólitos glutamatérgicos em alguns grupos com transtorno bipolar. Contudo, os resultados variam entre regiões cerebrais, fases do humor, tratamentos e desenhos de pesquisa. Isso não permite afirmar que exista simplesmente “glutamato alto” ou “GABA baixo” em todas as pessoas com o transtorno.
Serotonina e noradrenalina
Serotonina e noradrenalina também modulam humor, resposta ao estresse, alerta, atenção e controle do comportamento. Elas podem participar dos mecanismos da impulsividade e dos episódios de humor, mas não existe um padrão clínico simples e comprovado de “serotonina baixa” ou “noradrenalina alta” capaz de diagnosticar o transtorno bipolar.
Além disso, neurotransmissores não trabalham isoladamente. Seus efeitos dependem de receptores, localização, liberação, recaptação, sensibilidade das redes, estado de humor, sono, ritmo circadiano, hormônios, substâncias e medicamentos.
Sono e ritmo circadiano também influenciam o controle
A privação de sono reduz atenção, flexibilidade cognitiva e capacidade de inibir respostas mesmo em pessoas sem transtorno bipolar. Na bipolaridade, alterações do sono e do ritmo circadiano podem ser simultaneamente sinais precoces, sintomas e fatores de desestabilização.
Quando a necessidade de sono diminui junto com aumento de energia, aceleração do pensamento e atividade intensificada, a mudança merece atenção clínica. O comprometimento do sono pode aumentar a distância entre o que a pessoa faria quando está estável e o que passa a fazer durante um episódio.
Não existe exame neurológico que confirme essa impulsividade
Ressonância magnética, dosagens de neurotransmissores, testes genéticos e exames de sangue não confirmam isoladamente que determinada ação foi causada pelo transtorno bipolar.
Até o momento, não existe biomarcador validado para diagnosticar a impulsividade bipolar em uma pessoa. A neurociência ajuda a compreender mecanismos prováveis em grupos, mas a avaliação clínica continua dependendo da história longitudinal, do estado de humor, do sono, da energia, das comorbidades, das substâncias e do contexto.
| Dimensão estudada | O que significa | Possível manifestação cotidiana |
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| Impulsividade atencional | Dificuldade de manter o foco e tendência a decidir sem processar todas as informações | Interromper uma tarefa, mudar rapidamente de assunto ou não considerar detalhes importantes |
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| Impulsividade motora | Tendência a agir imediatamente, antes de refletir | Enviar uma mensagem, comprar, dirigir ou confrontar alguém sem avaliar as consequências |
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| Falta de planejamento | Menor consideração pelas consequências futuras | Assumir dívidas, abandonar compromissos ou iniciar projetos sem recursos para concluí-los |
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| Urgência positiva | Agir precipitadamente sob emoções positivas intensas | Fazer gastos, apostas ou promessas durante euforia ou entusiasmo elevado |
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| Urgência negativa | Agir precipitadamente para aliviar emoções negativas intensas | Usar substâncias, romper relações ou se colocar em risco durante angústia ou raiva |
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| Falta de premeditação | Não pensar suficientemente antes de agir | Tomar decisões importantes sem comparar riscos e alternativas |
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| Falta de perseverança | Dificuldade de manter tarefas monótonas, difíceis ou prolongadas | Iniciar muitas atividades e abandonar parte delas quando exigem esforço continuado |
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| Busca de sensações | Preferência por experiências novas, intensas ou excitantes | Procurar velocidade, apostas, aventuras ou outras experiências de alto estímulo |
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| Dificuldade de inibir respostas | Problema para interromper uma ação já iniciada ou conter uma resposta automática | Continuar uma discussão, uma compra ou outro comportamento mesmo percebendo o risco |
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| Preferência por recompensa imediata | Desvalorizar benefícios futuros diante de uma recompensa menor disponível agora | Gastar o dinheiro reservado para depois em algo que produz satisfação imediata |
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Uma pessoa pode apresentar várias dessas dimensões ao mesmo tempo. Outra pode ter dificuldade principalmente quando está eufórica, angustiada, privada de sono ou sob efeito de álcool. Por isso, dizer apenas que alguém “é impulsivo” fornece pouca informação clínica.
Impulsividade atencional
A impulsividade atencional envolve dificuldade de sustentar a atenção, tendência a pensamentos rápidos e menor elaboração antes de responder.
Durante mania ou hipomania, ela pode aparecer junto com distraibilidade, fuga de ideias, aumento da fala e aceleração do pensamento. A pessoa passa rapidamente de um estímulo ou plano para outro e pode tomar decisões sem examinar informações essenciais.
Entretanto, distraibilidade não é exclusiva da bipolaridade. Pode ocorrer no TDAH, na ansiedade, na privação de sono, no uso de substâncias e em várias outras condições. O que orienta a avaliação do transtorno bipolar é a presença de uma mudança episódica acompanhada de alterações do humor, da energia, do sono e do funcionamento.
Impulsividade motora e dificuldade de inibir respostas
A impulsividade motora corresponde à tendência de agir antes de pensar. A dificuldade de inibir respostas é um conceito relacionado: mesmo quando a ação já começou a produzir sinais de perigo, pode ser difícil interrompê-la.
Na mania, o aumento de energia, a autoconfiança excessiva, a distraibilidade e a redução da avaliação de risco podem acelerar a passagem entre vontade e ação. Isso ajuda a compreender por que alguns comportamentos surgem em sequência, como realizar várias compras, enviar muitas mensagens, envolver-se em conflitos ou tomar sucessivas decisões profissionais.
Não significa que a pessoa tenha perdido toda a capacidade de escolha. Significa que os processos de avaliação e freio comportamental podem estar prejudicados durante o episódio, principalmente quando a gravidade aumenta.
Falta de planejamento e de premeditação
Planejar exige antecipar consequências, comparar alternativas, tolerar espera e ajustar a ação a objetivos de longo prazo.
Durante um episódio de elevação do humor, a pessoa pode subestimar obstáculos e superestimar as próprias capacidades. Um plano financeiramente inviável pode parecer uma oportunidade excepcional; abandonar um emprego pode parecer a única decisão lógica; e um projeto que exigiria meses pode parecer realizável em poucos dias.
Na falta de premeditação, a ação acontece sem análise suficiente. Na falta de planejamento, existe uma dificuldade mais ampla de organizar o futuro e manter decisões alinhadas a metas posteriores. Os conceitos se sobrepõem, mas não são idênticos.
Urgência positiva: quando a euforia acelera a ação
Urgência positiva é a tendência a agir de modo precipitado quando emoções agradáveis estão muito intensas.
Esse conceito é especialmente relevante para compreender determinados comportamentos da mania e da hipomania. Euforia, excitação, sensação de potência e expectativa exagerada de recompensa podem produzir decisões que parecem coerentes naquele momento, embora sejam avaliadas de maneira muito diferente após o episódio.
Exemplos incluem:
- compras e investimentos não planejados;
- apostas;
- exposição sexual;
- direção em alta velocidade;
- divulgação excessiva de informações pessoais;
- promessas grandiosas;
- mudanças repentinas em relacionamentos, trabalho ou residência;
- início simultâneo de inúmeros projetos.
Nem toda alegria intensa produz urgência positiva. O risco aumenta quando a emoção elevada se combina com redução da necessidade de sono, aceleração do pensamento, grandiosidade, aumento de atividade e menor reconhecimento das consequências.
Urgência negativa: agir para interromper a dor
Urgência negativa é a tendência de agir precipitadamente diante de sofrimento intenso, como angústia, raiva, vergonha, medo ou desesperança.
Ela pode aparecer durante episódios depressivos, estados mistos, conflitos e outras situações de desregulação emocional. A ação pode funcionar como uma tentativa imediata de escapar, anestesiar ou interromper uma experiência interna difícil.
Isso pode envolver uso de álcool ou outras drogas, alimentação descontrolada, gastos, comportamentos sexuais de risco, agressividade, rompimentos abruptos e autolesão.
É importante evitar uma simplificação: comportamento suicida não deve ser explicado apenas por impulsividade. Trata-se de um fenômeno complexo, relacionado a fatores como intensidade da depressão, desesperança, características mistas, tentativas anteriores, uso de substâncias, acesso a meios, eventos estressores e disponibilidade de apoio.
Estudos encontraram associação entre impulsividade desencadeada por emoções e histórico de ideação suicida, tentativas e autolesão em pessoas com transtorno bipolar. Essa associação ajuda na avaliação clínica, mas não permite prever individualmente quem tentará suicídio.
Busca de sensações
Busca de sensações é a tendência a procurar experiências novas, estimulantes ou intensas. Ela não é necessariamente patológica. Pode estar relacionada à curiosidade, exploração, esportes e criatividade.
O problema surge quando a procura por intensidade ocorre sem proteção suficiente ou se combina com outros elementos, como euforia, grandiosidade, uso de substâncias e baixa percepção de risco.
Também é necessário diferenciar busca de sensações habitual de uma mudança abrupta. Uma pessoa anteriormente cautelosa que passa a procurar riscos durante um período de pouco sono e energia elevada apresenta um dado clínico diferente de alguém que sempre apreciou atividades intensas sem prejuízo significativo.
Preferência por recompensas imediatas
Em tarefas de desconto temporal, avalia-se quanto uma pessoa reduz o valor subjetivo de uma recompensa quando precisa esperar por ela. Escolher repetidamente uma recompensa menor e imediata em lugar de outra maior no futuro pode refletir impulsividade de escolha.
No cotidiano, isso pode aparecer quando a satisfação de comprar, apostar, usar uma substância ou realizar uma ação imediatamente pesa mais do que as consequências financeiras, clínicas ou relacionais posteriores.
Os resultados de tarefas laboratoriais não correspondem perfeitamente ao comportamento na vida real. Sono, medicação, estado de humor, compreensão da tarefa, comorbidades e contexto podem modificar o desempenho. Por isso, nenhum teste isolado diagnostica a impulsividade do transtorno bipolar.
A impulsividade é de estado ou de traço?
A resposta mais adequada é: pode envolver os dois componentes.
Uma característica de estado varia conforme a fase clínica. No transtorno bipolar, diferentes formas de impulsividade podem se intensificar durante mania, hipomania e apresentações com características mistas.
Uma característica de traço representa uma tendência relativamente estável, observável também fora dos episódios agudos. Revisões sistemáticas e metanálises encontraram níveis mais elevados de impulsividade autorreferida em grupos de pessoas eutímicas com transtorno bipolar quando comparados a controles sem o transtorno.
Contudo, isso não significa que todas as pessoas com bipolaridade sejam impulsivas quando estão estáveis. Resultados obtidos por escalas de autorrelato são mais consistentes do que alguns resultados de tarefas comportamentais, e as médias de grupos não determinam o funcionamento de um indivíduo.
Comorbidades, número e gravidade dos episódios, uso de substâncias, sintomas residuais, TDAH, transtornos de personalidade, idade, sono e funcionamento cognitivo podem influenciar os resultados.
Portanto, a evidência atual sustenta um modelo misto: existe um componente que pode aumentar com o episódio e, em parte dos pacientes, uma vulnerabilidade que permanece entre episódios.
Como a impulsividade pode mudar em cada fase do transtorno bipolar?
Mania
Na mania, a impulsividade pode ser intensificada por aumento de energia, grandiosidade, redução da necessidade de sono, pensamentos acelerados, distraibilidade, busca de recompensa e comprometimento do julgamento.
As consequências podem ser graves: endividamento, exposição sexual, acidentes, conflitos, perda de emprego, problemas legais ou decisões incompatíveis com os valores habituais da pessoa. Em quadros com psicose, a capacidade de avaliar a realidade pode estar ainda mais comprometida.
Hipomania
Na hipomania, não existe o prejuízo acentuado, a hospitalização ou a psicose que caracterizariam mania. Ainda assim, podem ocorrer decisões precipitadas, gastos, irritabilidade e exposição a riscos.
Como a pessoa pode sentir-se mais confiante e produtiva, os custos do comportamento nem sempre são reconhecidos durante o episódio. A percepção de prejuízo pode surgir apenas posteriormente.
Depressão bipolar
A depressão pode produzir lentificação e indecisão, mas não exclui impulsividade. Algumas pessoas apresentam urgência negativa, agitação, irritabilidade ou ações destinadas a aliviar rapidamente um sofrimento intenso.
Quando existe energia ou agitação associada a sintomas depressivos, é especialmente importante investigar características mistas e risco suicida.
Características mistas
Em apresentações mistas, sintomas do polo oposto acompanham um episódio de mania, hipomania ou depressão. A combinação de sofrimento depressivo, pensamentos acelerados, irritabilidade, agitação, energia e impulsividade pode produzir elevado risco clínico.
Irritabilidade e agitação, isoladamente, não comprovam um estado misto. Pelo DSM-5-TR, o especificador exige pelo menos três sintomas do polo oposto durante a maior parte dos dias do episódio.
Eutimia
Eutimia não significa ausência absoluta de qualquer dificuldade. Algumas pessoas mantêm sintomas residuais, problemas de atenção, dificuldade de planejamento ou maior sensibilidade a recompensas e emoções intensas.
Outras recuperam um funcionamento muito próximo do habitual. Por isso, o plano terapêutico precisa ser individualizado e não pode partir do estereótipo de que toda pessoa com transtorno bipolar é permanentemente impulsiva.
Impulsividade, álcool e outras drogas
Transtornos relacionados ao uso de substâncias são mais frequentes em pessoas com transtorno bipolar do que na população geral e podem ampliar riscos.
A relação pode funcionar nas duas direções. A impulsividade e a busca de recompensa podem favorecer o consumo; álcool, cannabis, cocaína, anfetaminas e outras substâncias podem reduzir a inibição, piorar o julgamento, alterar o sono, precipitar sintomas e dificultar a adesão ao tratamento.
Também é possível que sintomas provocados por intoxicação ou abstinência se pareçam com mania, hipomania, depressão ou ansiedade. A avaliação deve reconstruir a sequência temporal entre consumo, sintomas e mudanças de comportamento.
Tratar apenas o humor e ignorar o uso de substâncias — ou fazer o contrário — tende a deixar uma parte importante do problema sem cuidado.
Nem toda impulsividade é transtorno bipolar
A impulsividade é transdiagnóstica: pode aparecer em várias condições e também em pessoas sem transtorno mental. O diagnóstico diferencial não depende somente do comportamento observado, mas de quando ele começou, quanto dura, o que o desencadeia e quais outros sintomas o acompanham.
Transtorno bipolar e TDAH
No TDAH, desatenção e impulsividade formam um padrão persistente, com início no período do desenvolvimento e presença em mais de um contexto.
No transtorno bipolar, a mudança mais característica é episódica. Durante mania ou hipomania, aparecem alterações em relação ao funcionamento habitual, acompanhadas por mudança de humor, aumento de energia ou atividade e, frequentemente, redução da necessidade de sono.
As duas condições podem coexistir. Quando isso acontece, os sintomas persistentes do TDAH continuam identificáveis entre os episódios de humor.
Transtorno bipolar e transtorno de personalidade borderline
No transtorno de personalidade borderline, a impulsividade integra um padrão mais abrangente de funcionamento e pode estar fortemente relacionada a emoções intensas, conflitos, rejeição ou abandono percebido.
No transtorno bipolar, embora fatores externos também possam influenciar o humor, mania e hipomania exigem períodos definidos de alteração do humor e aumento de energia ou atividade, com outros sintomas associados.
A diferença entre “reativo” e “espontâneo” não resolve todos os casos. Transtorno bipolar e TPB podem coexistir, e algumas pessoas com bipolaridade mantêm impulsividade entre episódios. O diagnóstico deve considerar desenvolvimento, padrão dos relacionamentos, identidade, curso longitudinal, sono, energia, duração e organização dos sintomas.
Substâncias, medicamentos e condições clínicas
Estimulantes, cocaína, determinados medicamentos, alterações da tireoide e outras condições podem produzir agitação, insônia, aumento de atividade ou desinibição.
Antes de atribuir a impulsividade à bipolaridade, é necessário avaliar substâncias, medicamentos, doenças clínicas e a relação temporal entre esses fatores e os sintomas.
Como a impulsividade deve ser avaliada?
A avaliação precisa investigar o comportamento no tempo e no contexto. Perguntas úteis incluem:
- Esse comportamento sempre existiu ou representa uma mudança recente?
- Ele aparece apenas durante períodos de alteração do humor?
- Houve redução da necessidade de sono ou apenas insônia com cansaço?
- A energia e a atividade aumentaram?
- Surgiram aceleração do pensamento, aumento da fala ou grandiosidade?
- Quais emoções precederam a ação?
- O objetivo era obter prazer, aliviar sofrimento ou buscar estimulação?
- Houve uso de álcool, drogas, estimulantes ou mudança de medicação?
- Quais foram as consequências financeiras, sexuais, físicas, legais e relacionais?
- O comportamento continua quando o humor está estável?
- Existe histórico desde a infância compatível com TDAH?
- Existem autolesão, ideação suicida, plano ou acesso a meios?
Escalas como BIS-11 e UPPS-P podem ajudar a organizar dimensões da impulsividade, mas não diagnosticam transtorno bipolar e não substituem entrevista clínica, avaliação do estado mental e reconstrução longitudinal dos episódios.
Com autorização da pessoa, informações de familiares ou pessoas próximas podem ajudar a reconhecer mudanças que não foram percebidas durante períodos de elevação do humor.
Tratamento: estabilizar o episódio vem primeiro
Quando a impulsividade aumenta dentro de mania, hipomania, depressão ou estado misto, o tratamento adequado do episódio é uma prioridade.
Diretrizes como CANMAT/ISBD recomendam tratamentos farmacológicos diferentes conforme a fase, a gravidade, o histórico de resposta, as comorbidades, os efeitos adversos e os riscos individuais. Estabilizadores do humor e determinados antipsicóticos possuem papel central no tratamento do transtorno bipolar.
Não existe um medicamento aprovado especificamente para todos os “tipos de impulsividade” na bipolaridade. A redução do comportamento impulsivo costuma ocorrer pela estabilização do episódio, pelo tratamento das comorbidades e pela organização de estratégias de proteção.
Medicamentos não devem ser iniciados, interrompidos ou modificados sem orientação médica. Antidepressivos exigem cautela; na depressão bipolar tipo I, a monoterapia antidepressiva não é recomendada pelas diretrizes CANMAT/ISBD.
O papel da psicoterapia
Psicoeducação, terapia cognitivo-comportamental, terapia focada na família e terapia interpessoal e do ritmo social possuem evidências como intervenções complementares em diferentes fases do transtorno bipolar.
A psicoterapia pode contribuir para:
- reconhecer sinais iniciais de ativação;
- mapear situações, emoções e consequências;
- identificar os tipos de impulsividade mais relevantes;
- criar um intervalo entre vontade e ação;
- regular sono e rotina;
- desenvolver planos financeiros e digitais de proteção;
- reduzir o uso de substâncias;
- reparar consequências relacionais sem reforçar culpa e estigma;
- melhorar adesão e participação nas decisões terapêuticas;
- construir um plano para crises e recaídas.
Habilidades oriundas da terapia comportamental dialética, como atenção plena, tolerância ao mal-estar, regulação emocional, análise em cadeia e a habilidade STOP, podem ser clinicamente úteis quando há urgência emocional ou comorbidade com TPB. Entretanto, a DBT não deve ser apresentada como substituta do tratamento farmacológico do transtorno bipolar, e a base de evidências específica para DBT na bipolaridade ainda é menor do que para intervenções psicossociais consolidadas nas diretrizes do transtorno.
Estratégias práticas para aumentar o intervalo entre impulso e ação
Estratégias de proteção precisam ser elaboradas preferencialmente durante a estabilidade, com participação da pessoa e respeito à sua autonomia.
Algumas possibilidades são:
- estabelecer um período de espera antes de compras, contratos ou decisões irreversíveis;
- limitar temporariamente cartões, transferências ou aplicativos de apostas quando surgirem sinais de episódio;
- definir previamente uma pessoa de confiança para consultar em decisões de alto impacto;
- evitar dirigir quando houver privação de sono, agitação, intoxicação ou percepção reduzida de risco;
- registrar sono, energia, humor, gastos e uso de substâncias;
- reduzir notificações, publicidade e acesso a estímulos associados ao comportamento de risco;
- manter horários regulares de sono e vigília;
- identificar sinais precoces pessoais, como aumento de mensagens, projetos, compras ou atividade sexual;
- utilizar uma sequência breve: parar, afastar-se do estímulo, respirar, nomear a emoção, verificar consequências e somente depois decidir;
- combinar antecipadamente quando entrar em contato com a equipe de saúde.
Essas medidas não constituem punição e não devem ser impostas de maneira coercitiva. São barreiras temporárias destinadas a proteger escolhas, patrimônio, relações e segurança durante períodos em que o julgamento pode ficar comprometido.
Responsabilidade sem moralização
Compreender a influência de um episódio não significa negar as consequências de uma ação. Também não significa reduzir a pessoa ao pior comportamento que apresentou quando estava adoecida.
Uma abordagem responsável combina proteção, tratamento, reparação possível, prevenção de recorrências e redução do estigma. Culpa e humilhação raramente melhoram o controle dos impulsos; já o reconhecimento precoce de padrões pode permitir intervenção antes que o prejuízo aumente.
A pessoa não é o impulso. E o diagnóstico não elimina sua autonomia. O objetivo do tratamento é ampliar a capacidade de perceber o que está acontecendo, recuperar margem de escolha e construir condições para que decisões importantes sejam tomadas com maior segurança.
Quando procurar ajuda com urgência?
É necessário buscar avaliação urgente quando a impulsividade estiver acompanhada de:
- pensamentos, planos ou intenção de suicídio;
- autolesão;
- ameaça ou risco de violência;
- sintomas psicóticos;
- vários dias com redução importante da necessidade de sono;
- desorganização intensa;
- intoxicação ou abstinência;
- gastos, direção ou comportamentos sexuais com risco imediato;
- incapacidade de manter a própria segurança.
No Brasil, o SAMU pode ser acionado pelo telefone 192. O Centro de Valorização da Vida oferece apoio emocional pelo número 188. Diante de risco imediato, também é indicado procurar uma unidade de emergência.
Conclusão
A impulsividade no transtorno bipolar não é um fenômeno único. Pode envolver atenção, ação, planejamento, busca de sensações, dificuldade de inibição, preferência por recompensas imediatas e respostas precipitadas a emoções positivas ou negativas.
Em algumas pessoas, ela aumenta principalmente durante episódios; em outras, parte da vulnerabilidade permanece entre eles. Essa diversidade explica por que avaliar apenas um comportamento isolado costuma levar a interpretações imprecisas.
O dado clínico mais importante não é simplesmente se a pessoa agiu sem pensar, mas como aquele comportamento se relaciona com seu funcionamento habitual, seu estado de humor, sua energia, seu sono, suas emoções, suas comorbidades e sua história ao longo do tempo.
Quando a impulsividade é compreendida sem moralização e tratada dentro de um plano integrado, torna-se possível reduzir riscos, reparar consequências e ampliar o espaço entre sentir, desejar e agir.
Sobre o autor
Jandré Lopes
Psicólogo — CRP 06/215909
Produção de conteúdo sobre transtorno bipolar, transtorno de personalidade borderline, DBT, regulação emocional e psicologia baseada em evidências.
Referências
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Informação também é cuidado.
Uma avaliação individualizada pode ajudar a compreender padrões de impulsividade e construir estratégias de proteção.
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