Artigo | Transtorno bipolar e Transtorno de Personalidade Borderline
Ciúme na mania, na hipomania e no TPB
A mesma palavra pode descrever experiências clínicas muito diferentes
Jandré Lopes • Psicólogo • CRP 06/215909

O ciúme não começa, necessariamente, como um sintoma. Em algum grau, ele faz parte da vida afetiva: aparece diante da possibilidade de perder um vínculo importante e pode levar a uma conversa, a um pedido de esclarecimento ou à revisão de acordos do casal. O problema clínico surge quando a suspeita ocupa grande parte do dia, resiste ao diálogo, produz sofrimento relevante ou passa a justificar interrogatórios, vigilância, ameaças e agressões.
Quando a pessoa tem transtorno bipolar ou Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), há um risco adicional de simplificação. Um episódio de ciúme pode ser atribuído automaticamente à mania, à hipomania ou ao medo de abandono. Essa conclusão apressada costuma esconder a pergunta mais importante: o que mudou, por quanto tempo, em qual contexto e com que grau de convicção?[1-4]
O ciúme não é critério diagnóstico do transtorno bipolar nem do TPB. Ele pode aparecer nos dois quadros, mas por caminhos diferentes. Também pode ocorrer sem qualquer um desses diagnósticos, diante de uma traição real, em outros transtornos mentais, após uso de substâncias ou em condições neurológicas. Este artigo organiza essas diferenças sem oferecer diagnóstico pela internet.
Ponto de partida: ciúme é uma emoção; controlar, perseguir ou agredir são comportamentos. Um diagnóstico pode ajudar a compreender o sofrimento, mas não transforma violência em cuidado nem retira a responsabilidade por buscar segurança e tratamento.
1. Quando o ciúme deixa de ser apenas uma reação
Não existe uma linha única capaz de separar o ciúme “normal” do “patológico”. A avaliação considera a combinação de intensidade, duração, flexibilidade, prejuízo e comportamento. Uma preocupação pode ser dolorosa e ainda permanecer aberta a novas informações. Em outra situação, a pessoa pode passar horas reconstruindo conversas, verificando redes sociais, exigindo provas de fidelidade ou interpretando qualquer atraso como confirmação de traição.
Na literatura, expressões como ciúme patológico, ciúme mórbido, ciúme obsessivo e ciúme delirante nem sempre são utilizadas da mesma maneira. Por isso, é mais seguro descrever os fenômenos presentes do que tratar essas expressões como diagnósticos intercambiáveis.[3,4]
Quatro perguntas ajudam a começar:
- Qual é o conteúdo? Medo de ser trocado, suspeita de infidelidade, sensação de humilhação ou certeza de traição?
- Como a pessoa se relaciona com esse pensamento? Ela reconhece que pode estar enganada ou considera a conclusão indiscutível?
- O que faz em resposta? Conversa, evita, rumina, verifica, interroga, monitora, ameaça ou agride?
- Que outras mudanças apareceram? Redução da necessidade de sono, aumento de energia, impulsividade, sintomas depressivos, uso de álcool ou drogas, dissociação ou alterações cognitivas?
2. Suspeita, pensamento intrusivo e delírio não são a mesma coisa
Uma suspeita pode ser revista. Um pensamento intrusivo costuma ser vivido como incômodo, repetitivo e difícil de afastar; frequentemente leva a tentativas de neutralização, como checar mensagens ou pedir garantias repetidas. Uma ideia supervalorizada ocupa posição central na vida da pessoa e admite pouca contestação, embora não tenha necessariamente a rigidez de um delírio.
No ciúme delirante, a infidelidade é tomada como fato apesar da ausência de evidências suficientes e da presença de informações contrárias. Pequenos acontecimentos passam a ser encaixados em uma narrativa fechada: uma mudança de roupa, um horário diferente ou uma notificação no celular tornam-se “provas”. O termo síndrome de Otelo costuma ser empregado para essa apresentação, mas não deve ser usado como sinônimo de todo ciúme intenso.[3,16]
Essa distinção não é apenas acadêmica. Ela modifica a investigação, o risco e o tratamento. Também exige cuidado: descobrir que houve uma mentira não prova que todas as interpretações estavam corretas, assim como ter um diagnóstico psiquiátrico não prova que a suspeita era falsa.
3. O que pode acontecer durante a hipomania
Na hipomania, há uma mudança nítida em relação ao funcionamento habitual, com humor elevado, expansivo ou irritável e aumento de energia ou atividade. O episódio dura pelo menos quatro dias consecutivos segundo o DSM-5-TR. Podem ocorrer redução da necessidade de sono, aceleração do pensamento, aumento da fala, distraibilidade, autoconfiança elevada e maior envolvimento em atividades potencialmente prejudiciais.[1,6]
Nenhum desses elementos produz ciúme obrigatoriamente. Em algumas pessoas, porém, a combinação de irritabilidade, impulsividade, aumento da libido, menor tolerância à frustração e leitura apressada das situações pode intensificar conflitos que já existiam. A pessoa pode enviar mensagens em sequência, confrontar o parceiro antes de verificar os fatos ou reagir com intensidade incomum a uma interação ambígua.
O ponto diagnóstico decisivo é que a hipomania não inclui psicose. Se houver delírios ou alucinações durante uma elevação do humor, o episódio é classificado como maníaco, e não hipomaníaco, independentemente de ter começado de forma aparentemente leve.[1,5]
Isso não significa que todo ciúme rígido durante uma hipomania seja psicótico. A convicção pode estar aumentada sem ser delirante. O profissional precisa examinar a capacidade de considerar alternativas, o conjunto de sintomas, o prejuízo e a evolução ao longo dos dias.
4. O que muda na mania
A mania envolve alteração mais intensa do humor e da energia, com prejuízo acentuado, necessidade de hospitalização ou presença de sintomas psicóticos. Pelo DSM-5-TR, a duração típica mínima é de uma semana, mas qualquer duração é suficiente quando a gravidade exige hospitalização.[1]
Durante um episódio maníaco, a suspeita pode ganhar velocidade e certeza. Irritabilidade, agitação, redução crítica do sono, impulsividade e pior julgamento podem aumentar confrontos. Quando há psicose, podem surgir delírios persecutórios, referenciais, grandiosos ou de outros conteúdos. O ciúme delirante é possível, mas não é uma manifestação necessária nem específica da mania.[5]
Uma ampla revisão sistemática encontrou sintomas psicóticos com maior frequência no transtorno bipolar tipo I e em episódios maníacos ou mistos do que na depressão bipolar. Delírios foram mais comuns do que alucinações, mas os estudos não permitem concluir que exista um padrão particular de ciúme típico do transtorno bipolar.[5]
Na prática, é importante observar se a convicção de traição apareceu junto com a redução do sono, a aceleração, a grandiosidade e outras mudanças episódicas; se diminuiu quando o episódio foi tratado; e se permanece fora das alterações de humor. Uma ideia que persiste de forma autônoma exige ampliar o diagnóstico diferencial.
5. E nos episódios com características mistas
Uma pessoa pode apresentar mania ou hipomania com sintomas depressivos simultâneos. Irritabilidade, agitação, desesperança, impulsividade e intensa dor emocional podem coexistir. Nesses estados, um conflito amoroso pode adquirir urgência e produzir ações rápidas, inclusive rompimentos, exposição pública, autolesão ou confronto.
Não é adequado chamar qualquer irritabilidade de “estado misto”. O especificador exige critérios definidos e avaliação do episódio completo.[1,7] Quando ativação e sofrimento depressivo aparecem juntos, a investigação de risco precisa ser direta, especialmente se houver insônia importante, uso de substâncias, ameaças ou ideias de morte.
6. Como o ciúme pode aparecer no TPB
No TPB, o ciúme também não é critério diagnóstico. O quadro envolve um padrão persistente de dificuldades na regulação emocional, nos relacionamentos, na identidade e no controle de impulsos. Entre os critérios do DSM-5-TR estão esforços para evitar abandono real ou imaginado, relações intensas e instáveis, instabilidade afetiva, raiva intensa e ideação paranoide transitória ou sintomas dissociativos associados ao estresse.[1,2,8]
Esses elementos podem criar terreno para experiências de ciúme, sobretudo quando uma situação é percebida como rejeição, afastamento ou substituição. Uma demora na resposta, uma mudança de tom ou a presença de outra pessoa podem provocar medo, vergonha, raiva e urgência para restabelecer a conexão. Em alguns casos, vêm perguntas repetidas, acusações, ameaças de término ou tentativas de testar o vínculo.
Estudos sobre TPB mostram maior sensibilidade a sinais de rejeição e dificuldades importantes em relacionamentos românticos. Ainda assim, essa literatura não demonstra que o ciúme seja universal, exclusivo do TPB ou causado por um único mecanismo. As relações são influenciadas pelas duas pessoas, pela história do casal, pelo contexto e por condições coexistentes.[9-11]
No TPB, as mudanças emocionais costumam ser muito reativas ao contexto interpessoal e podem oscilar em horas. Isso difere da síndrome completa de hipomania ou mania, que envolve uma mudança sustentada de humor, energia e atividade durante dias, acompanhada por um conjunto característico de sintomas. A rapidez da reação, sozinha, não fecha diagnóstico.
7. Paranoia transitória no TPB não equivale automaticamente a delírio
Sob estresse intenso, algumas pessoas com TPB apresentam desconfiança ou interpretações persecutórias transitórias. Numa crise relacional, isso pode aparecer como sensação de estar sendo enganado, excluído ou deliberadamente ferido. O grau de insight pode diminuir naquele momento e melhorar quando a ativação emocional cede.[1,8]
Um delírio persistente, sistematizado e independente do contexto imediato pede outra investigação. É necessário considerar transtornos psicóticos, episódio de humor com psicose, substâncias, condições neurológicas e outras causas. O fato de a pessoa ter TPB não autoriza atribuir todo pensamento incomum ao transtorno.
Diferença clínica importante: na mania, procura-se uma síndrome episódica de alteração de humor, energia, sono e atividade. No TPB, observa-se um padrão mais amplo e duradouro, com reatividade interpessoal e dificuldades de regulação. Os dois diagnósticos podem coexistir.
8. Mania, hipomania e TPB lado a lado
| Aspecto | Hipomania | Mania | TPB em crise relacional |
|---|---|---|---|
| Curso temporal | Mudança episódica sustentada por pelo menos quatro dias | Geralmente pelo menos uma semana, ou qualquer duração se houver hospitalização | Reações podem surgir rapidamente diante de acontecimentos interpessoais; o transtorno corresponde a um padrão persistente |
| Sono e energia | Menor necessidade de sono e aumento de energia ou atividade | Alterações mais intensas, frequentemente com grande redução do sono, agitação ou desorganização | O sono pode piorar pelo estresse, mas não há necessariamente aumento sustentado de energia |
| Relação com o ciúme | Pode aumentar reatividade, impulsividade e verificações; não é critério | Pode amplificar suspeitas e, quando há psicose, incluir delírios; não é critério | Pode estar ligado a medo de abandono, rejeição percebida, raiva e urgência relacional; não é critério |
| Psicose | Ausente por definição | Pode ocorrer | Pode haver ideação paranoide transitória relacionada ao estresse; psicose persistente exige investigação adicional |
| Funcionamento | Mudança observável, sem prejuízo acentuado ou hospitalização | Prejuízo grave, risco, hospitalização ou psicose podem estar presentes | O prejuízo aparece em um padrão duradouro de relações, identidade, emoções e impulsos |
| O que mais ajuda a diferenciar | Linha do tempo completa do episódio e mudança em relação ao habitual | Gravidade, psicose, risco e conjunto da síndrome | Gatilhos relacionais, padrão longitudinal e funcionamento entre crises |
A tabela resume tendências clínicas e não substitui avaliação. Pessoas reais nem sempre cabem em uma única coluna, especialmente quando há comorbidade.
9. Transtorno bipolar e TPB podem coexistir
O diagnóstico diferencial não deve ser tratado como uma disputa em que apenas uma hipótese pode sobreviver. Algumas pessoas apresentam transtorno bipolar e TPB. Nesses casos, podem existir episódios claros de mania ou hipomania sobre um padrão duradouro de sensibilidade interpessoal, instabilidade da identidade e desregulação emocional.
Para diferenciar e reconhecer comorbidade, o profissional reconstrói a linha do tempo: funcionamento habitual, início e término dos episódios, sono, energia, fala, atividade, impulsividade, sintomas psicóticos, gatilhos, períodos de estabilidade e consequências. Informações de familiares ou parceiros podem ajudar quando obtidas com consentimento e sem comprometer a segurança.[6-8]
O ciúme, isoladamente, tem pouco valor para essa diferenciação. Nem intensidade, nem cenas de discussão, nem a quantidade de mensagens enviadas substituem o curso longitudinal.
10. O que mais precisa ser investigado
Antes de relacionar o ciúme à mania, à hipomania ou ao TPB, é necessário considerar outras possibilidades:
- fatos reais do relacionamento e acordos pouco claros;
- pensamentos intrusivos e comportamentos compulsivos;
- transtorno delirante do tipo ciumento ou outro transtorno psicótico;
- depressão, trauma e padrões de apego, sem presumir causalidade;
- uso ou abstinência de álcool, estimulantes e outras substâncias;
- medicamentos capazes de alterar sono, ativação ou percepção;
- transtornos neurocognitivos, doença de Parkinson, lesões cerebrais e outras condições neurológicas;
- controle coercitivo utilizado deliberadamente para restringir a autonomia do parceiro.
Revisões e séries clínicas sobre síndrome de Otelo descrevem causas psiquiátricas, relacionadas a substâncias e neurológicas. A qualidade da evidência é limitada por estudos observacionais e relatos de caso, portanto não existe um exame cerebral ou marcador biológico que determine a origem do ciúme numa pessoa.[3,15,16]
11. Quando deixa de ser apenas sofrimento e passa a representar risco
Verificar localização sem consentimento, exigir senhas, impedir amizades, controlar roupas ou dinheiro, aparecer inesperadamente em locais, ameaçar revelar informações e perseguir após o término são formas de violação e controle. Podem ocorrer com ou sem transtorno mental.
Revisões sobre violência entre parceiros identificam ciúme e suspeita de infidelidade entre fatores associados à violência psicológica, física e sexual. Associação não é previsão individual: a maioria das pessoas que sente ciúme não cometerá violência. Mesmo assim, ameaças, perseguição, separação recente, acesso a armas, estrangulamento prévio, intoxicação, agitação intensa, ideias suicidas ou homicidas e descumprimento de limites exigem resposta imediata.[12-14]
Nenhum diagnóstico justifica vigilância, coerção ou agressão. Também não é seguro exigir que a pessoa ameaçada confronte sozinha alguém agitado, intoxicado ou delirante.
Em perigo imediato no Brasil, acione a Polícia Militar pelo 190 ou o SAMU pelo 192. O Ligue 180 orienta mulheres em situação de violência. Em crise suicida, além dos serviços de urgência, o CVV atende pelo 188. Esses contatos não substituem um plano de segurança individualizado.
12. Como é feita uma avaliação clínica cuidadosa
A avaliação não começa perguntando apenas “você é ciumento?”. Ela procura reconstruir um processo:
- Linha do tempo: quando a suspeita começou, como evoluiu e se acompanha episódios de humor.
- Sono, energia e atividade: houve redução da necessidade de sono, aceleração, aumento de projetos, gastos ou comportamento sexual de risco?
- Convicção e flexibilidade: a pessoa admite dúvida, procura garantias ou considera a traição uma certeza impossível de revisar?
- Comportamentos: há ruminação, checagem, interrogatório, invasão de dispositivos, perseguição, ameaças ou agressões?
- Contexto relacional: existem fatos verificáveis, acordos rompidos, separação recente ou dinâmica de controle?
- Outros sintomas: depressão, dissociação, paranoia, alucinações, alterações cognitivas, intoxicação ou abstinência.
- Risco: ideias de morte, planos, acesso a armas, violência anterior e segurança de crianças ou outras pessoas.
Aplicativos, gravações ou “testes de fidelidade” não substituem avaliação clínica. O objetivo do atendimento não é atuar como investigador do casal, mas compreender o estado mental, o sofrimento, o funcionamento e os riscos.
13. Tratamento quando o ciúme aparece em um episódio bipolar
Se o ciúme surgiu dentro de uma mania, o alvo principal é o episódio maníaco e sua gravidade. Diretrizes recomendam avaliação psiquiátrica, manejo de risco e tratamento baseado em evidências, que pode envolver estabilizadores do humor e antipsicóticos conforme sintomas, histórico, condições clínicas e preferências. Psicose, agitação grave, incapacidade de autocuidado ou risco podem exigir atendimento de urgência e hospitalização.[6,7]
Na hipomania, a ausência de psicose não significa ausência de prejuízo. É importante proteger o sono, reduzir álcool e outras substâncias, rever fatores precipitantes e procurar o profissional responsável. Medicamentos, inclusive antidepressivos, não devem ser iniciados, suspensos ou ajustados por conta própria.
Depois da estabilização, psicoterapia, psicoeducação, monitoramento de sinais precoces e acordos realistas sobre privacidade e comunicação podem ajudar a reparar consequências e prevenir novas crises. O tratamento não deve transformar o parceiro em fiscal permanente do humor.
14. Tratamento quando o ciúme aparece no TPB
No TPB, a psicoterapia estruturada ocupa lugar central. A diretriz da American Psychiatric Association recomenda um plano abrangente e centrado na pessoa, com avaliação de riscos, transtornos coexistentes e objetivos concretos. DBT/TCD, terapia baseada em mentalização, terapia do esquema, psicoterapia focada na transferência e manejo psiquiátrico geral são abordagens estudadas para o transtorno como um todo.[8,17]
O trabalho pode incluir reconhecer sinais de rejeição percebida, nomear emoções antes de agir, tolerar incerteza, checar interpretações, reduzir comportamentos impulsivos, comunicar necessidades e construir limites. Não existe evidência de que uma única habilidade “cure o ciúme”, e o plano precisa considerar a função que esse comportamento assume naquela relação.
Medicamentos não são tratamento específico para o núcleo do TPB nem para o ciúme relacionado ao transtorno. Podem ser utilizados por tempo e alvo definidos em situações particulares ou para condições coexistentes, com revisão periódica. Revisões sistemáticas não sustentam farmacoterapia como tratamento geral da psicopatologia do TPB.[8,18]
15. Terapia de casal é sempre indicada
Não. A terapia de casal pode ser útil quando há segurança, participação voluntária e condições para diálogo. Não deve ser usada para decidir quem está “falando a verdade” nem para forçar a pessoa controlada a negociar sua própria segurança.
Quando há coerção, perseguição, medo, violência ou risco de retaliação pelo que for dito na sessão, o atendimento conjunto pode aumentar o perigo. Nesses casos, a prioridade é avaliação individual, proteção e articulação com serviços adequados. Mesmo sem violência, o tratamento individual pode precisar anteceder o trabalho do casal quando há mania aguda, psicose ou desregulação intensa.[3,8,12]
16. O que fazer antes de agir por impulso
Em situações sem risco imediato, algumas medidas podem criar tempo entre a emoção e a ação:
- Descrever o fato observável: separar o que ocorreu da interpretação construída sobre ele.
- Verificar o estado atual: observar sono, aceleração, irritabilidade, uso de substâncias e intensidade da emoção.
- Adiar comportamentos irreversíveis: evitar exposição pública, invasão de contas, ameaças e confrontos durante ativação intensa.
- Procurar uma referência de cuidado: contatar terapeuta, psiquiatra ou pessoa previamente combinada no plano de crise.
- Priorizar segurança: se houver risco de violência ou perda de controle, afastar-se da situação e acionar ajuda.
Essas medidas não provam nem refutam uma suspeita. Servem para impedir que uma interpretação momentânea se transforme em dano permanente.
17. Perguntas frequentes
Todo ciúme intenso no transtorno bipolar é mania
Não. A intensidade do ciúme não define mania. É necessário haver uma síndrome episódica com alterações características de humor, energia e atividade. A suspeita pode ter outras origens ou estar relacionada a fatos do relacionamento.[1,6]
Uma pessoa em hipomania pode ter ciúme delirante
Se houver um delírio durante a elevação do humor, o episódio não permanece classificado como hipomania; por definição, sintomas psicóticos tornam o episódio maníaco. Também é preciso investigar outras causas de psicose.[1,5]
Medo de abandono significa que a pessoa tem TPB
Não. Medo de perder um vínculo aparece em muitas pessoas e situações. O diagnóstico de TPB exige um padrão persistente, abrangente e clinicamente relevante, avaliado pelo conjunto de critérios e pelo funcionamento.[1,2]
Pessoas com TPB são necessariamente ciumentas ou violentas
Não. O ciúme não é critério do TPB, e um diagnóstico não determina caráter nem comportamento. Generalizações desse tipo aumentam o estigma e dificultam a busca por tratamento.
Como saber se é uma preocupação justificável ou um sintoma
Fatos e sintomas podem coexistir. A avaliação examina evidências, flexibilidade, contexto, comportamentos, sofrimento e outras mudanças mentais. O objetivo não é invalidar a pessoa, mas evitar que qualquer hipótese seja aceita sem exame.
O parceiro deve entregar senhas para tranquilizar a pessoa
Entregar senhas pode aliviar a tensão por pouco tempo e, ao mesmo tempo, fortalecer um ciclo de verificação. Privacidade e transparência devem ser negociadas livremente. Exigência, ameaça ou vigilância sem consentimento são sinais de controle, não tratamento.
Conclusão
A palavra “ciúme” pode esconder medo, raiva, pensamento intrusivo, reação a uma quebra real de confiança, paranoia transitória ou delírio. Na hipomania, ela pode ganhar intensidade em meio à irritabilidade e à impulsividade, mas não há psicose. Na mania, uma convicção de traição pode integrar um quadro psicótico, embora isso não seja específico do transtorno bipolar. No TPB, o ciúme pode surgir em crises de rejeição percebida e medo de abandono, dentro de um padrão mais amplo de desregulação e dificuldades relacionais.
O diagnóstico não está na cena isolada. Está no curso, no conjunto dos sintomas, no funcionamento e na relação da pessoa com aquilo que pensa. Uma avaliação responsável também pergunta o que ela faz com o ciúme, porque sofrimento merece cuidado e risco exige proteção.
Há tratamentos eficazes para episódios bipolares e psicoterapias com evidências para o TPB. O caminho começa por nomear o fenômeno com precisão, abandonar explicações únicas e construir um plano que preserve tanto a saúde de quem sente quanto a segurança de quem está ao redor.
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